Artigo completo sobre Figueiró: entre vinhas, granito e festas de São Brás
Freguesia de Paços de Ferreira onde o sino da igreja marca o ritmo da vida rural no Vale do Sousa
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O sino da Igreja de São Brás toca ao meio-dia e o som atravessa os 285 hectares de Figueiró com uma clareza que só existe em lugares pequenos. A pedrada do campanário — granito cinza polido pelo tempo — devolve o eco sobre os telhados de telha vermelha, sobre as vinhas que descem em socalcos suaves até aos ribeiros. O cheiro a lenha mistura-se com o da terra húmida dos campos cultivados, onde alguém trabalha curvado entre couves e cebolas. Aqui, a 358 metros de altitude, o Vale do Sousa desenha-se numa ondulação discreta, sem dramatismos de montanha, mas com a firmeza de quem sempre viveu da terra.
Quando o nome guardava o fogo
Figueiró vem de figulus, palavra latina para oleiro ou ferreiro. O nome sugere fornos antigos, mãos sujas de barro ou brasas onde o ferro ganhava forma. Não há vestígios arqueológicos que confirmem a existência dessa comunidade artesanal medieval, mas o topónimo persiste desde o século XIII, como uma memória fonética de uma atividade que terá dado identidade ao lugar. A freguesia cresceu em torno da agricultura e da pequena nobreza rural — algumas casas senhoriais de granito ainda exibem brasões de armas nas fachadas, testemunhos mudos de uma hierarquia que já não comanda, mas permanece inscrita na pedra.
A Igreja de São Brás, o padroeiro, foi remodelada ao longo dos séculos, mas mantém a sobriedade típica das igrejas rurais do Minho: paredes espessas, altar dourado, um silêncio denso que absorve o murmúrio das orações. Na zona rural, a capela de São Sebastião acolhe romarias em janeiro — as Sebastianas —, um dos momentos mais vivos do calendário comunitário. Em 3 de fevereiro, a Festa de São Brás enche a freguesia de música tradicional, procissões, bailes populares e mesas fartas. Os ranchos folclóricos animam os arraiais ao ar livre, enquanto o vinho verde corre fresco dos copos e o fumo dos grelhadores sobe devagar.
Comer à moda minhota
Na mesa de Figueiró reconhece-se o Minho rural: rojão à moda de Freamunde, com a carne de porco cortada em cubos dourados pela banha e colorau, servida com castanhas e batatas. A sarrabulho — ensopado espesso de sangue de porco com arroz — divide opiniões, mas é presença obrigatória nas festas de matança. O cozido à portuguesa reúne carnes, enchidos e legumes numa panela que ferve devagar, libertando um vapor denso e reconfortante. Nos doces, sobressaem os toucinho-do-céu, os bilhóres e os folares, receitas que ainda se fazem em casa, com as mãos de quem aprendeu a medir ingredientes sem balança.
O Capão de Freamunde, ave engordada segundo técnica tradicional e protegida por IGP, é uma referência gastronómica da região — a carne macia e suculenta resulta de uma alimentação cuidada e de um processo artesanal transmitido entre gerações. O vinho verde, branco e leve, acompanha as refeições com a acidez fresca que pede o clima atlântico.
Entre vinhas e ribeiros
Os caminhos rurais de Figueiró desenrolam-se entre vinhas, quintas de granito e campos cultivados. Não há trilhos oficialmente sinalizados nem áreas protegidas, mas os percursos entre lugares antigos oferecem uma caminhada tranquila, pontuada pelo canto dos pássaros e pelo murmúrio dos regatos que alimentam a agricultura. Os bosques de carvalhos e sobreiros surgem em manchas dispersas, oferecendo sombra nos dias de calor. A paisagem é discreta, sem espetáculo — a beleza está na harmonia repetida das vinhas alinhadas, no contraste entre o verde intenso da folhagem e o cinza das casas de pedra.
A freguesia tem apenas 2477 habitantes, distribuídos por uma densidade que ainda permite conhecer os vizinhos pelo nome. A presença de 326 jovens e 401 idosos desenha um equilíbrio frágil, típico do interior norte, mas as festas religiosas mantêm viva a identidade comunitária. Quem passa por Figueiró no verão sente o cheiro a rebentar do pão no forno da padaria que fica junto à Igreja Matriz - a única que sobreviveu ao encerramento das outras duas que existiam. Às quartas-feiras, ainda se ouve o camião do pão de Avintes a tocar a campainha pelas ruas estreitas, mas já ninguém corre como antigamente para comprar os pregos quentes.
Ao final da tarde, quando o sino de São Brás volta a tocar, a luz rasante do poente aquece o granito das fachadas e as sombras alongam-se sobre os caminhos de terra batida. O fumo de uma lareira sobe devagar, desenhando uma linha vertical no ar parado, enquanto o silêncio rural se instala — denso, habitado, vivo.