Artigo completo sobre Lamoso: Onde os Sinos Marcam o Tempo nas Colinas
Freguesia minhota a 347 metros de altitude preserva tradições agrícolas e festas centenárias
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O sino da Igreja de Lamoso bate as seis e não há pressa nenhuma. Está a 347 metros de altitude, o que quer dizer que o ar é mais fresco do que no fundo do vale e que, nos dias limpos, se avista até ao mar de vinhas que desce para o Sousa. São 215 hectares apenas — dá para percorrer a freguesia toda numa tarde de domingo sem suar — mas o tamanho não conta a história que aqui se acumula.
Terra de pasto e de memória
Lamus, diziam os romanos: lugar de pastagem. O nome aguentou-se e ainda hoje se percebe porquê: há vacas no curral do Sr. Armindo que são vistas de longe, os muros de pedra são mais antigos que a nossa democracia e o terreno, se deixar, enche-se de tojos num instante. A igreja, que é Monumento desde 1982, foi crescendo aos trambolhões: um canto românico, outro manuelino, a torre que parece ter sido colada lá em cima por engano. Dentro, há uma imagem de São Brás que a malta jurava sarar dores de garganta — era só lhe tocar na campainha de prata antes da missa.
O mês que a aldeia não dorme
Janeiro é de São Brás, com bênção de gargantas e broa quente distribuída à porta do templo. A verdadeira romaria, porém, são as Sebastianas, em Maio. Durante três dias o coreto ocupa a estrada, os empadões aparecem em tabuleiros de alumínio e o vinho verde corre em copos que já foram de geleia. Perdeu-se a junta de freguesia em 2013 — foi tudo parar a Sanfins — mas ninguém conseguiu extinguir o «remendo» que ainda se faz nas vésperas da procissão: mulheres na cozinha do Centro de Dia a enrolar rissóis enquanto homens armam a banca para o bingo. Quem vem de fora pensa que é festa; quem cá vive sabe que é sobrevivência.
O que se come (e bebe) por aqui
Há dois sítios onde se faz questão de levar o visita: o Quinta dos Leitões, à entrada da aldeia, para provar o leitão que vai à lenha desde 1983, e o Café Regional, onde o Zé Manel serve papas de sarrabulho à quinta-feira — dia de mercado em Paços — e onde o vinho tinto é servido à pressão, como deve ser. O capão de Freamunde aparece nas épocas festivas; o resto do ano comem-se rojões com troucha, feitos pela D. Alda que já foi empregada das melhores casas do Porto e agora regala os netos e mais quem aparecer. Peça-se sempre sobremesa: o arroz-doce leva canela em pau e os ovos são das galinhas que se ouvem ao fundo.
Um passeio sem placas
Não há centro de interpretação nem setas amarelas. Para ver Lamoso, é só seguir o asfalto até acabar e depois continuar pela estrada de terra. A subida dá à Fonte da Rua, onde ainda há quem vá buscar água para a máquina do café, e depois sobe-se mais um pouco até ao lugar do Outeiro: dali avista-se o vale todo, desde a fábrica da Valbom até ao sopé de Felgueiras. Volte-se antes do pôr do sol: a luz pega nas fachadas caiadas e faz as casas parecerem maiores do que são. Leve casaquinho: o vento do Norte não perdoa quem desconfia.
Quando o sino voltar a bater e as vacas do Armindo regressarem ao curral, percebe-se que Lamoso não é um postal — é antes um sítio que se guarda no ouvido: o som do sino, o cheiro da lenha, a conversa que se prolonga porque ninguém tem pressa para ir para lado nenhum.