Artigo completo sobre Sanfins de Ferreira: vinhas, sino e festa de São Brás
Entre socalcos de granito e capelas barrocas, a vida rural do concelho de Paços de Ferreira
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O sino da capela de São Brás toca ao longe, mas não é o único. Às sete, às doze e às sete outra vez, o badalo rasga o ar vindo do campanário da igreja matriz — um som metálico que se mistura com o ladrar dos cães e o ranger das janelas que se abrem. Sanfins de Ferreira acorda aos trancos: o primeiro autocarro para o Porto já passou às seis e meia, mas o pão na Padaria do Celestino só está pronto às oito. Quem espera do lado de fora sente o cheiro do forno a lenha que ainda há, mesmo ao lado do lava-loiça industrial.
Criada em 1843, depois de se separar da antiga freguesia de Ferreira, Sanfins nasceu da junção de "São" — por São Brás, o padroeiro — e "fins", um termo medieval que assinalava limites territoriais. A designação guarda na própria palavra a geografia e a fé que moldaram este lugar. A freguesia cresceu em torno da agricultura e da produção de vinhos verdes, actividades que ainda hoje definem a paisagem e o quotidiano. As pequenas quintas, os caminhos de terra batida, os muros que delimitam propriedades — tudo aqui parece ter sido disposto pela mesma mão paciente que planta e espera.
Pedra, madeira e ouro
A Igreja Paroquial de Sanfins ergue-se no centro, barroca na fachada e no interior, onde os retábulos dourados contrastam com a penumbra fria das naves. Entre as bancadas de madeira pintada de castanho, há sempre um casal de velhos que se benze com os dedos em riste antes de se sentar. A capela de São Brás, mais pequena e mais próxima do quotidiano, é o coração das celebrações de Fevereiro — mas também onde o padre vai à pressa dar a extrema-unção quando a ambulância demora. Há ainda cruzeiros de pedra nos cruzamentos de caminhos antigos, pontes estreitas sobre ribeiros que no Verão quase não correm. São marcas de uma viação rural que ligava lugares, capelas, romarias — uma rede de devoção e comércio que ainda se pode percorrer a pé, se se calçar sapatos com sola grossa.
Quando a comunidade se junta
No dia 3 de Fevereiro, a festa de São Brás devolve à rua procissões, música popular e arraiais que duram até tarde. O coreto da Alameda enche-se de gente que já não se vê desde o ano passado — os filhos que emigraram, os netos que cresceram, os vizinhos que só se falam nesta altura. Em Janeiro, as Sebastianas celebram São Sebastião com missas e actividades culturais — uma tradição rara que Sanfins mantém viva enquanto outras freguesias a deixaram cair. Nestas datas, o calendário pára. As casas enchem-se, os emigrantes regressam, e a freguesia volta a ter o número de gente que já não tem o resto do ano. No café Central, o António ainda serve o café a dez cêntimos para quem trouxe o copo de casa.
Cozinha de quintal e vinha
À mesa, o cabrito assado chega com batatas ao forno e molho escuro de alho e vinho. Os rojões à moda do Minho surgem com castanhas e fatias de laranja — mas só se for laranja da terra, que o Zé da tasca guarda no celeiro desde Dezembro. O caldo verde nunca falta, feito com couve do quintal e azeite de Trás-os-Montes que a primavera envia. Nos dias de festa, as papas de sarrabulho ou o arroz de feijão completam o almoço. O Capão de Freamunde, com Indicação Geográfica Protegida, é presença obrigatória no Natal e na Páscoa — mas ninguém o compra no supermercado. E há sempre vinho verde branco, fresco e leve, servido em copos pequenos que se enchem e voltam a encher até às três da tarde, quando o Silva da adega fecha para almoçar.
Caminhar entre vinhas
A 377 metros de altitude, Sanfins abre-se sobre o vale do Rio Ferreira, com vistas que se estendem até à Serra de Rates. Os trilhos rurais seguem entre vinhas, muros de pedra e bosquetes onde ainda se ouvem aves. Não há áreas protegidas, mas há uma paisagem construída ao longo de séculos — quintas, caminhos de pedra, capelas isoladas. Caminhar aqui é atravessar uma geografia de trabalho e devoção, onde cada curva do caminho revela outra vinha, outra capela, outro cruzeiro. No Caminho do Calvário, os morangos silvestres crescem entre as pedras e os netos dos donos ainda os colhem para fazer doce.
Ao fim da tarde, quando o sol poente acende de laranja as fachadas caiadas, o som do sino volta a cortar o silêncio. É um som que não anuncia nada de novo — apenas a continuidade do que sempre foi. Na Alameda, o chafariz continua a pingar, o café fecha às nove em ponto, e alguém ainda vai levar o leite à porta da vizinha, como se faz todas as noites.