Artigo completo sobre Lordelo: granito, vinhas e memória no coração de Paredes
Entre terraços de vinha e casas de pedra, Lordelo respira ao ritmo das vindimas e da tradição
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O cheiro chega antes da imagem. É aquele perfume que só quem tem um avô com lagar reconhece de imediato — mosto a fermentar, uvas esmagadas há pouco, que te transporta para as vindimas de miúdo quando faltava à escola para "ajudar" (ler: estragar) o que se fazia. Em Lordelo, a cerca de 250 metros de altitude, o ar tem uma densidade diferente: não é o frio cortante da serra, mas também não é a moleza do litoral. É algo intermédio, como quem não se decide entre ser terra quente ou terra fria.
A freguesia estende-se por quase 976 hectares no concelho de Paredes e alberga uns 9.100 habitantes. Façam as contas: 933 pessoas por quilómetro quadrado. Não é um lugarejo onde se cumprimentam todos no café — há três — mas também não é uma cidade onde ninguém se conhece. É aquele ponto exacto onde ainda se sabe quem é filho de quem, mas já não se pergunta "de onde vens?" porque toda a gente sabe que vens de fora.
O nome que veio de uma torre
Há quem diga que "Lordelo" vem de uma torre. Pode ser. O que sei é que já cá estava no século XIII, quando os nossos avós ainda se perdiam no Gerês. O nome específico — Lordelo é um bocado como "Silva" no mundo das freguesias — aparece em documentos desse tempo, o que quer dizer que esta pedra já viu muita coisa. Hoje, a junta anda a publicar estudos sobre a história local, como quem finalmente decide contar as histórias que o pai nunca quis contar.
Granito, cal e o sino do Salvador
A Igreja Matriz do Divino Salvador não é nada de especial — digo isto com o maior dos respeitos. É daquelas igrejas rurais que não aparecem em postais, mas onde se baptizaram três gerações da mesma família. O sino ainda marca a hora do almoço e, acreditem, há quem regule o forno com base nisso. A Capela de São Miguel, espalhada pelos caminhos, é onde se vão os mais velhos quando as pernas já não dão para a caminhada até à matriz.
O resto é arquitectura que não precisa de placa: casas de granito que aguentam mais tempestades que os netos dos donos, palheiros que resistem porque ninguém se lembra de os demolir, muros baixos onde se sentam os homens à sombra — sempre no mesmo sítio, como se as pedras tivessem marcado os respectivos traseiros.
Sarrabulho, capão e o verde no copo
Vamos à comida, que é o que interessa. O arroz de sarrabulho não é para vegetarianos — tem sangue, tem carne, tem tudo o que o médico proíbe. Mas é bom. É daqueles pratos que se come com camisola e se acompanhava com vinho tinto quando ainda se podia beber ao almoço. Os rojões à minhota vêm com pão de milho, o verdadeiro, que parte os dentes se estiver dois dias fora do saco.
E depois há o capão. Não é qualquer capão — é o Capão de Freamunde, com IGP e tudo. É como o Stilton do Minho: só se come em Dezembro, só vem de certos sítios, e só quem prova percebe porque é que a avó guardava um ano inteiro para comprar um.
Os vinhos verdes não são "vinhos verdes" no sentido de serem verdes. São brancos, rosés ou tintos, mas são daqui. Bebe-se numa quinta qualquer, de pé, com o copo na mão esquerda porque a direita está ocupada a comer amêndoas. O mel é do Mel das Terras Altas do Minho — sim, também tem DOP, parece que até o mel tem curso superior agora — e vai por cima de tudo o que é queijo ou doce.
Caminhos entre vinhas e valeiros
Os trilhos são o melhor mapa que vão encontrar. Começam na porta do café, passam pela casa do Zé que tem sempre a porta aberta, atravessam vinhas que parecem Geometria Descritiva e terminam num ribeiro onde ainda se apanham bogas — peixinhos que só quem é daqui sabe descascar. Não há placas a dizer "ponto de interesse" porque o interesse é o caminho todo. Na Primavera, os bosques parecem que foram pintados por alguém com excesso de verde; no Outono, as vinhas tornam-se ocre e carmim como se estivessem com vergonha de ser verdes o ano todo.
O arraial como liturgia colectiva
A Festa do Divino Salvador é quando Lordelo decide ser cidade. As ruas encheram-se de colchas nas varandas — sim, é assim mesmo, colchas de verdade, como nas aldeias do Gerês — e o cheiro a chouriça assada compete com o som das bandas filarmónicas. É a única altura do ano em que os emigrantes regressam e fingem que nunca saíram. A romaria de São Miguel é mais pequena, mas tem o mesmo número de rezadoras que conseguem rezar e comentar a vida alheia em simultâneo.
Lordelo tem dois sítios para dormir — uma moradia e uns quartos. Não é o Algarve: não há piscina, não há spa, não há massagens com pedras quentes. Há camas, há pequeno-almoço com pão de ló caseiro, e há a promessa de que ninguém vos vai vender um pacote de "experiência autêntica". A autenticidade vem de graça: é o vizinho a contar porque é que a vindima foi má este ano, é a senhora da padaria a lembrar-se que foste lá há três anos, é o cão do café que se lembra de ti mesmo que tu não te lembres dele.
Ao final da tarde, quando a luz se põe atrás das vinhas e o cair do cacho no cesto faz aquele som característico — sim, aquele — percebes que Lordelo não é um sítio que se visita. É um sítio que se atravessa, como quem entra numa casa onde a porta está sempre aberta e se vai embora com as mãos a cheirar a mosto e a promessa de que, no ano que vem, se repete a vindima. E talvez tu estejas lá outra vez, mesmo sem ter marcado.