Artigo completo sobre Parada de Todeia: granito, vinha e tradição viva
Freguesia de Paredes onde o mel DOP, o capão IGP e os vinhos verdes contam a história do território
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O granito das soleiras guarda ainda o peso dos anos, polido pelos passos de quem vai à mercearia ou vem do café. Em Parada de Todeia, a pedra não é só construção — é o livro de corpo onde a aldeia vai escrevendo os dias. São 300 e poucos hectares, 1792 moradores, e uma altitude que chega para ver o Gerês nos dias limpos e para a névoa descer como cobertor nas tardes de Inverno.
Entre a vinha e a mesa
Pertencemos à Região dos Vinhos Verdes, mas a vinha divide o terreno com o milho e os lameiros. O que sobra dá para umas hortas muradas onde ainda se planta couve para o caldo e feijão para o casamento. O Capão de Freamunde tem estatuto IGP, mas o que importa é que cada quinta mantém o seu pátio de frangos de capoeira — é disso que vem o tal capão, engordado à moda antiga e vendido directamente na porta. O mel é do tipo "Terras Altas do Minho", espesso a ponto de segurar a colher de pé, e prova-se antes de comprar, como é hábito.
Comer por aqui não anda à procura de estrelas. Anda à procura da Dona Alda, que ainda faz alheiras no dia de São Martinho, ou do Sr. Armindo que fica à porta do forno comunitário às 6h da manhã, dia sim dia não. A chouriça fica pendurada no tecto da salinha onde se janta — vai-se cortando à medida que o inverno aperta. Não há menu, há conversa: "Hoje tem caldo, se quiser apareça às 13h, mas traga o pão porque o meu já acabou."
O calendário das celebrações
O ano marca-se pelos santos e pelos foles. Em Maio, a romaria de São Miguel de Rebordosa atravessa a freguesia toda — vai-se a pé, leva-se o santinho no bolso e o farnel na mochila. Em Agosto é a festa do Divino Salvador em Paredes: há tasquinha no adro, o vinho tira-se do barril e paga-se o que se bebe num copo de jeito. A missa é às 11h, o arraial começa à meia-noite e no meio há sempre um engenheiro de Lisboa que descobriu que a avó era daqui e agora quer regressar. Deixem-no falar — é assim que as aldeias ganham gente nova.
Quem fica e quem regressa
Dos 1792 habitantes, 250 ainda vão à escola e 315 já pedem a comparticipação dos óculos. O resto está no meio: trabalha no Tamega ou na zona industrial de Penafiel, e regressa para jantar. Há seis casas registadas para alojamento local — três são de emigrantes que voltaram e fizeram obras, duas são de portuenses que queriam "um sítio para fugir ao fim-de-semana" e uma é da Catarina, que abriu um atelier de cerâmica e aluga o andar de cima a quem queira aprender a fazer tachos. Ninguém ficou rico, mas a aldeia tem Wi-Fi rápido e café com bolos caseiros — já deu para travar a decadência.
Onde o dia tem outro peso
Parada de Todeia não está no caminho de nada. Quem cá chegou, desviou-se propositadamente ou perdeu-se a sério. Às 18h, quando o sol bate na torre da igreja e o vento traz o cheiro a eucalipto queimado, o lugar encolhe até caber dentro de um cinzeiro de café. É nessa hora que se percebe: aqui o tempo não é mais lento, é só mais nosso. E isso, meu amigo, já não se compra em lado nenhum.