Artigo completo sobre Recarei
Entre vinhedos de vinho verde e muros de pedra, a freguesia vive ao ritmo das estações e da terra
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O fumo sobe direito das chaminés quando a manhã chega a Recarei. Não há vento suficiente para o desviar, apenas o ar frio de Outubro que traz consigo o cheiro a lenha de carvalho e eucalipto, misturado com a terra húmida dos campos que rodeiam as casas. A freguesia estende-se por 14,9 km² de terreno ondulado, onde os vinhedos da região dos Vinhos Verdes alternam com hortas pequenas, muros de granito e caminhos de terra batida que levam ao lugar de Caramos, à capela de S. Sebastião ou ao campo de futebol da UD Recarei.
Vida entre o vale e a vinha
A 122 metros de altitude, Recarei não se ergue dramaticamente sobre o território. Vive antes numa relação horizontal com a paisagem, estendida e discreta, com os seus 4 479 habitantes (Censos 2021) distribuídos por lugares que se vão revelando devagar: a Igreja Paroquial de Recarei com o seu frontão maneirista, o largo do Cruzeiro onde se faz o mercado mensal, casas de pedra com varandas de madeira pintada onde se penduram os milhos nos primeiros dias de setembro. A densidade populacional — 300,6 pessoas por km² — não se sente como aperto. Sente-se antes como proximidade, como a certeza de que há sempre alguém a passar na rua de Lordelo, um vizinho a regar a horta junto à Ribeira de Recarei, uma conversa à porta do café "O Padrão".
Os vinhedos sobem as encostas em socalcos estreitos, armados em xisto e granito que guarda o calor do dia e o devolve à noite. Aqui produz-se vinho verde DOC da sub-região do Sousa, esse vinho que não é verde de cor mas de juventude, de acidez fresca, de bolhas ligeiras que explodem na língua. As vinhas são pequenas, familiares, trabalhadas à mão como na quinta da familia Leite de Vasconcelos que mantém a adega original de 1923. No final do Verão, o cheiro a uva madura paira sobre os caminhos, adocicado e denso, atraindo vespas e recordações de vindimas onde se cantava ao desafio.
O sabor das coisas certas
A gastronomia de Recarei ancora-se no território e nas suas designações protegidas. O Capão de Freamunde IGP — ave criada em liberdade, de carne firme e sabor intenso — chega às mesas em dias de festa, assado no forno com batata e regado com vinho branco da Adega Cooperativa de Paredes fundada em 1958. O Mel das Terras Altas do Minho DOP, âmbar escuro e espesso, guarda o pólen dos castanheiros e das urzes, um sabor que oscila entre o doce e o amargo, entre a flor e a resina. É produzido por 12 apicultores registados na freguesia, segundo a Associação de Apicultores do Vale do Sousa.
Nas cozinhas, perpetuam-se gestos antigos: o pão cozido no forno comunitário de Lordelo (reedificado em 2004), a chouriça de porco preto Bísaro pendurada no fumeiro durante três meses, o caldo verde onde a couve-galega nada em fatias finas como rendas verdes. Não há pressa. A comida aqui não é combustível — é pausa, é conversa, é a desculpa para juntar a família à mesa no dia de São Martinho e deixar o tempo esticar-se até ao café com aguardente velha da Quinta da Aveleda.
Entre gerações e calendários
A estrutura demográfica da freguesia revela o que tantas outras revelam: 558 jovens (0-14 anos) contra 923 idosos (65+ anos), uma balança que pende para o lado da memória. Mas Recarei não vive do passado como quem vive de recordações empoeiradas. Vive-o como quem habita uma casa antiga: com respeito, com adaptações, com a consciência de que as paredes da Casa do Despacho (século XVIII) já viram passar tropas napoleónicas em 1809 e ainda têm muito para contar.
As festas pontuam o calendário com a regularidade de um relógio litúrgico. A Festa de São Miguel em Rebordosa (29 de setembro), a Festa do Divino Salvador em Lordelo (segundo domingo de agosto), as Festas de Paredes em honra do Divino Salvador (último domingo de agosto) — celebrações que transformam os largos em palcos, que enchem as ruas de luzes coloridas e as noites com os Bombeiros Voluntários de Recarei a organizarem a barraca de sardinhas. Nesses dias, Recarei multiplica-se, recebe os emigrantes que voltam de França e da Suíça, os filhos que partiram para o Barreiro ou para Lisboa, os netos que falam francês com sotaque da Suíça romanda.
Há um único estabelecimento de hospedagem registado na freguesia — o Casa da Eira, no lugar de Lordelo, com quatro quartos e vista para o vale do Sousa. Quem aqui dorme acorda com o som dos galos do quintal do Sr. Carlos, com o sino da igreja matriz que marca as horas desde 1785, com o trânsito ligeiro da EN106 que atravessa o território. Acorda, sobretudo, com a sensação de que o dia começa devagar, sem sobressaltos — como quem respira fundo antes de mergulhar nas águas frias da piscina municipal que António de Oliveira Salazar inaugurou a 6 de agosto de 1961.