Artigo completo sobre Paço de Sousa: pedra, vinho verde e sino no vale
Freguesia de Penafiel onde o granito e as videiras marcam o ritmo de quatro mil habitantes
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O sino da igreja soa às onze e meia — ninguém precisa de relógio. O eco sobe a encosta abaixo até ao Sousa e regressa como se batesse nas costas de quem está no adro. Depois, só o ruído do rio e o ladrar do Bobi da D. Rosa, sempre preso à mesma oliveira. Paço de Sousa não é “137 metros acima do nível do mar”; é o lugar onde se nasceu o meu avô e onde ainda se vai buscar pão à padaria que abre às sete e meia, seja Verão ou Inverno.
São 3 838 almas, mas o número não diz que na Casa do Povo só há domingo feijoada para 120 e que a senhora da bilheteira ainda pergunta “és de quem?” quando alguém novo aparece. Há 744 idosos — contaram-nos no Junta — e 489 miúdos que apanham o autocarro às sete e um quarto para Penafiel, onde há escola secundária. Quem fica, fica. Quem sai, raramente regressa para viver.
Pedra que resiste
A igreja é românica, sim, mas o que importa é que a porta pesa o mesmo que um cordo de lenha e que, dentro, cheira a cera de vela e a roupa guardada. O túmulo do Egas Moniz está ali, mas quem traz as flores são as mulheres da Aldeia de Baixo, que as mudam de três em três dias para “não ficar feio”. Não há filas, nem áudio-guias; há um cesto de esmolas pregado na parede e um livro de visitas onde alguém escreveu “vim por causa da história, fiquei pelo silêncio”.
As videiras são da marca da casa: dona Ermelinda tem duas parcelas atrás da Capela de São Sebastião e oferece uvas aos netos antes de as levar ao lagar de Figueira. Em setembro, o cheiro a mosto impregna as camisetas e os cães voltam para casa com as patas roxas. O vinho não tem nome bonito — chama-se “verde” e pronto — mas corta a sede e a conversa.
Logística do quotidiano
De Penafiel são oito quilómetros: duas rotundas, uma estrada que parece um tapete comparada com as lombas de Parada de Todeia. Os nove alojamentos são casas de família que sobraram quando os filhos foram para o Porto. Têm nomes como “Casa da Avó Lourdes” e “Quinta do Vale” e, se pedirem, ainda vos deixam o pão na porta às sete da manhã. Não há recepção 24 h; há uma chave debaixo do cavador e uma nota: “Beba café, feche a porta, regue a alface”.
Não há miradouro, mas há o banco de granito em frente ao cemitério onde se vê o sol pôr-se atrás da ponte romana. Às seis e meia, o granito fica cor de mel e as andorinhas fazem acrobacias por cima do telhado da capela. O Sousa, lá em baixo, vai levando folhas de nogueira e garrafas vazias de Super Bock. No verão, as crianças saltam do cais velho; no inverno, os pais dizem que é “para irem morrer à pneumonia”, mas elas vão mesma.
Paço de Sousa não promete nada. Oferece o ranger do ferro da janela que ninguém arranja, o galo que canta às três da manhã porque sim, o cheiro a tostão queimado quando a vizinha esquece o pão no forno. E oferece a certeza de que, se aqui vier, alguém vai perguntar “de quem és?” antes de te deixar entrar.