Artigo completo sobre Rio de Moinhos: Granito, Vinhas e Quotidiano na Encosta
Freguesia de Penafiel onde a pedra molda a vida entre socalcos e vales do Tâmega
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As escadas rangem como o estômago de um homem que já levou uns bagos a mais. Em Rio de Moinhos, a pedra não é posta por acaso — está ali porque alguém a pôs, há séculos, e ainda hoje serve para o mesmo: segurar a terra que senão escorre toda para o Tâmega. São 2536 almas, mas parecem menos. Espalham-se por oito aldeias que nem sempre se falam — de uma portinha para a outra já é código postal diferente.
O que se vê (e o que não se vê)
Quem desce do cabecilho pensa que o resto é tudo descida. Engana-se. O terreno é como a vida: dá uma descanso, depois sobe outra vez. Por isso é que os miúdos daqui têm pernas de ciclista sem nunca terem visto uma bicicleta de corrida. Trêscentos e sete, conta a escola. Os mais velhos, esses já não contam — são quatrocentos e cinquenta e quatro, sentam-se onde há sombra e não precisam de Instagram para saber que o sol se põe atrás do sameiro.
A vindima, que é o nosso ano novo
Começa sempre no mesmo fim-de-semana de Setembro. Quem tem uvas finge que tem pressa, quem não tem vai mesmo para ajudar — e para beber o primeiro copo antes das nove. O trator do Zé Manel passa às sete da manhã com o reboque a ranger, e é este som que acorda a freguesia inteira. Durante uma semana o ar cheira a sumo de uva que fermenta nas pipas abertas. Depois passa. E é assim que sabemos que o Verão acabou, não precisamos de consultar o telemóvel.
Onde comer sem pagar por views
Há duas tascas. Nenhuma tem nome na porta — é a do António e a da Dona Alda. Servem o que há: se é época de borrego, é borrego; se é de cabrito, é cabrito. Acompanhado com arroz ou com broa, conforme o dia. O vinho é verde, servido em copos de cristal que vieram num pacote de detergente. Não há menu, há conversa. Se não gostas, diz-se à mesa que na próxima faz-se diferente — mas ninguém reclama, porque se reclamasse comia sozinho no dia seguinte.
Para quem vem de fora
Não espere miradouros com guardanapos de plástico nem lojas de recordações. A única recordação que leva é o silêncio — esse sim, cabe na mala. Leve também os pés: há um trilho que sobe até ao cruzeiro da Pedra Furada, onde se vê o vale todo. São quarenta minutos de subida, vinte de descida. Leve água, leve bateria no telemóvel para a fotografia, mas não precise dela: a vista grava-se sozinha.
À hora de regressar, quando o sol se põe atrás das vinhas e as pedras ainda estão quentes do dia, esfregue a mão no muro do quintal do sr. Albino. É granito, sim, mas é também a parede que ele aparou durante três meses depois de se reformar. Diz que foi para não enlouquecer. Funcionou — tem 87 anos e ainda sobe ao telhado sem escadote.