Artigo completo sobre Argivai: o barro vermelho que moldou a Póvoa
Antiga freguesia de olarias e telheiras conserva fornos históricos e tradição cerâmica viva
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O cheiro chega primeiro. Broa de milho a sair do forno de lenha na Padaria Silva — não é na Avenida dos Pescadores, isso é nome de cartão-postal, a broa é na Rua da Estrada, onde o forno ainda é carregado às cinco da manhã. O miolo úmido marca a diferença: aqui não se pouva no sertão, e a crosta tem a grossura de quem sabe que a broa tem de aguentar o caminho para a praia, para a obra, para a mercearia que ainda vende a peso. Cá fora, o ar de outubro traz sal, não é frescura — é o nevoeiro que sobe do mar e se agarra às casas como um gato de rua. A trinta e poucos metros de altitude, o som que se ouve não é martelo-picão: é o motor da Toyota Hiace do Sr. António, que traz peixe da Lota para as barracas da praia antes do sol raiar. Argivai nunca parou de crescer, mas cresceu aos trambolhões — primeiro as olarias, depois as fábricas de conservas, depois as vivendas de quem fugiu do centro da Póvoa para aqui poder ter um quintal com um nespereiro.
A terra que deu nome a si mesma
Argivai carrega a matéria-prima no nome, mas ninguém aqui fala latim. Diz-se "barro vermelho" e pronto — é esse que ainda se arranca no fundo dos quintais quando se quer fazer um muro ou aterrar um buraco. Os Fornos de Telha são mesmo ruínas, mas não são monumento para turista: é onde os miúdos vão fumar o primeiro cigarro e onde se fazem fogueiras no São João. A Maria Manuela Viana não é de Argivai, é de Beiriz, mas veio cá para o ateliê porque aqui o barro é mais gordo, tem mais ferro, aguenta melhor a cozedura. No Mó de Barro, quem quer pode pagar 15 euros e levar para casa um prato feito com a própria mão — mas ninguém fala em dignidade artística, fala-se em "fazer uma coisinha para a avó".
O rio que serpenteia e esconde
O Rio Alto não é rio, é ribeira. Quem diz "rio" é quem não o conhece. Entra em Argivai devagar, mas quando chove em Rates enche em duas horas e leva as pontes às costas. De manhã cedo, antes das sete, os pescadores à linha estão lá — não são garças-reais, são homens de camisola de lã com buracos, e o que pescam é peixe-gato e algumas enguias que ainda escapam às redeiras de Navais. O passadiço é bom para caminhar, mas quem o fez foram os alemães do projecto Natura 2000, não foi nenhum cá da terra. Às seis da tarde, quando o sol se põe atrás da central eléctrica, a água fica cor de ferrugem — não é cobre, é mesmo ferrugem, dos canos que a EDP deixou cair ao rio e ninguém tirou.
O Caminho de Santiago passa cá, mas os peregrinos vão todos para a praia. A capela da Senhora da Saúde tem os azulejos, sim, mas tem também o cemitério onde estão os meus avós — e é isso que me lembro quando lá vou: do cheiro a cera derretida e da areia que se arrasta nos sapatinhos.
Procissões, lenços e balões de papel
Na última semana de junho, Argivai enche-se de gente que não cá mora. Os ranchos são de Gondifelos, de Balazar, de lá para cima — cá só há a banda da escola e o rancho da tertúlia, que ensaiam o ano todo para fazer dois bailes no largo. Os balões de São Pedro são de papel de arroz, mas quem os faz é um engenheiro de Famalicão que veio morar cá e trouxe a mania. A procissão fluvial é um engodo — os barcos são da Capitania, os padres são de Vila do Conde, e as velas são LED porque o vento do mar apagava-as todas.
A romaria da Senhora da Saúde é na primeira segunda-feira de setembro, mas quem vai de lenço branco são as velhas. As outras vão de telemóvel na mão e sandálias ortopédicas. A imagem é do século XVIII, mas o andor é novo — o antigo pesava uma tonelada e os homens já não são os que eram. Em maio, a procissão é à noite e vai-se ao luar, mas vai-se também ao som de um carro de som que o Rego comprou na Feira de Barcelos. A Feira da Espiga é no adro da igreja, mas as castanhas são compradas no Continente e o barro vermelho vem de Vila Nova de Gaia — o de cá já não chega.
Onde a caldeirada leva enguia e o vinho é verde
A caldeirada de enguias faz-se no tacho de barro, sim, mas é porque o barro não estoura quando o fogo é brando. O segredo é o vinagre de vinho branco da Adega Cooperativa — não é vinho, é o vinagre que sobra quando o vinho fica acedo. As enguias são do Rio Alto, mas são poucas — o resto é congelado de Espanha. As papas de milho não têm tamboril, isso é invenção de restaurante. Têm lingueirão e um ovo escalfado por cima, e comem-se com uma colher de pau que deixa as mãos a cheirar a alho durante dois dias. O Vinho Verde é o Loureiro da Quinta do Regueiro — não é das quintas do Vale do Rio Alto, isso não existe, é da Quinta do Regueiro em Estela, mas fica a cinco minutos e o rapaz que serve é primo do Zé do café. O toucinho-do-céu é do Convento de Tibães, mas quem o faz é a D. Alda que aprendeu com a freira que ficou viúva e veio morar para cá. Tem mais manteiga que o original, mas ninguém se queixa.
O cruzeiro que guarda uma prece em latim
O cruzeiro está lá, sim, mas a inscrição está quase apagada. Diz "pestis" mas pode dizer "pax" — ninguém sabe ao certo, porque o latim ninguém o fala e o 4.º ano já não tem latim desde 1974. A igreja é de 1958, mas a torre é de 1962 porque a primeira caiu com o temporal. O Núcleo Museológico é na antiga estação de águas, mas só abre quando o Sr. Padre tem tempo — e ele tem tempo quando não há missa, casamento ou morto. O eco é mesmo de catedral, mas é de catedral vazia: as pessoas vão lá dentro, veem o cano de ferro e lembram-se que ali tratava-se da água que vinha do poço e que ainda hoje se sente o cheiro a cloro que a D. Rosa punha para matar os vermes.
José Maria da Silva Nobre morreu em 1983, mas a mulher ainda vive na Rua do Cruzeiro. Diz que ele não reconheceria nada — nem as lojas do chinês, nem o semáforo da Rotunda, nem as casas de cinco andares que tapam o mar. Mas reconheceria o cheiro da broa às seis da manhã, o barro vermelho que ainda mancha as mãos de quem planta tomates no quintal, e o sino que toca ao meio-dia com a mesma cadência de sempre — três badaladas, pausa, mais três, como quem diz "estou aqui, estou aqui, estou aqui".