Artigo completo sobre Beiriz: onde o milho e o São Pedro marcam o calendário
Freguesia da Póvoa de Varzim entre colinas, vinha verde e o murmúrio do Rio Alto no vale
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O cheiro chega antes de qualquer imagem: fumo de sardinha a estalar sobre grelhas de ferro, misturado com o perfume adocicado das flores de papel que pendem das fachadas. É uma manhã de Junho em Beiriz e as ruas estreitas, ladeadas por muros baixos de xisto cobertos de musgo, preparam-se para as Festas de São Pedro. Uma concertina ensaia algures atrás de uma janela de guilhotina. Mais abaixo, no vale, o murmúrio do Rio Alto escoa-se entre pedras escuras, tão discreto que só se ouve quando se pára — e parar, aqui, não é difícil.
Com quase doze mil habitantes distribuídos por menos de cinco quilómetros quadrados, esta antiga freguesia da Póvoa de Varzim — hoje integrada na União de Freguesias Póvoa de Varzim, Beiriz e Argivai — é surpreendentemente densa, mas nunca sufocante. O próprio topónimo anuncia: Biricus, do latim, "lugar de colinas". Colinas que se cobrem de milho no Verão, de vinha verde na Primavera, e que no Inverno guardam, sob céu cinzento-chumbo, a memória de uma ocupação que remonta à pré-história.
Granito, talha dourada e uma cruz que vigia o adro
A Igreja Paroquial de Beiriz domina o centro da freguesia com a sobriedade setecentista do seu granito aparente. Lá dentro, porém, a contenção dissolve-se: o retábulo barroco explode em talha dourada, cada voluta reflectindo a luz oblíqua que entra pelas frestas laterais. No adro, uma cruz de pedra do século XVIII ergue-se entre líquenes e hera rasteira, como uma sentinela silenciosa. Dali, voltando o corpo para ocidente, a vista desdobra-se sobre telhados de barro vermelho até adivinhar a linha da costa — o Parque Natural do Litoral Norte começa a poucos passos, e o ar carrega sempre um resquício de sal.
Dispersas pela área rural, casas senhoriais de granito como o Casal de São Bento atestam séculos de prosperidade agrícola. Ao longo do Rio Alto, moinhos de água recuperados conservam as suas mós e mecanismos de madeira gretada pelo uso, e junto deles sobrevivem tanques e chafarizes onde, ainda hoje, se pode surpreender alguém a lavar roupa à mão, os punhos mergulhados na água fria da manhã. A Capela de Nossa Senhora da Saúde, classificada como Imóvel de Interesse Público, é de uma simplicidade que desarma: paredes caiadas, altar modesto, e uma devoção local que no primeiro domingo de Maio a transforma no epicentro da Peregrinação de Nossa Senhora da Saúde. Os fiéis percorrem caminhos rurais desde a igreja matriz, acompanhados por bandas filarmónicas cujos metais reverberam entre os eucaliptos, e no final partilham-se doces conventuais e vinho verde servido em copos grossos.
A procissão das fogaceiras e o pão que se bendiz
Se há imagem que define Beiriz, é a da Procissão das Fogaceiras. Em honra de São Pedro, raparigas da aldeia vestem mantas de lã e equilibram na cabeça cestos com grandes fogaceiras — pães doces de trigo, densos e perfumados — que depois se repartem entre todos os presentes. É um ritual de partilha que antecede a sardinhada nocturna, as fogueiras no largo e o bailarico que se estende até altas horas ao som de concertinas e pimba sem complexos. Nas mesas compridas, o caldo verde fuma em tigelas de barro e o pão-de-ló, húmido no centro, corta-se à fatia generosa.
Em anos alternativos, a Festa do Pão recupera outro gesto ancestral: o cereal acabado de debulhar é exibido e benzido, recordando a eira comunitária que ainda se avista no tecido da freguesia — uma laje ampla de granito, polida por décadas de milho batido em conjunto antes da industrialização. As ruas enfeitam-se então com flores de papel, técnica introduzida por mestres de cerimónia vindos do Minho no século XIX, e que transforma cada travessa num corredor de cor — rosa-choque, amarelo-vivo, azul-cobalto — contra o cinzento mineral das fachadas.
Sarrabulho, canudas e vinho de loureiro
A mesa de Beiriz oscila entre o campo e o mar que se adivinha. O arroz de sarrabulho à moda da Póvoa chega à mesa fumegante, escuro de sangue e especiarias, acompanhado por rojões que estouram ao trincar. A caldeirada de peixe poveiro traz consigo o Atlântico — batata, cebola e louro a fundir-se com o sumo do peixe. Para dias de calor, a açorda de bacalhau com hortelã oferece frescura inesperada, e o cabrito assado no forno de lenha perfuma casas inteiras com o seu aroma de gordura crepitante e alecrim.
Entre os doces, as beiradas — folhados recheados com doce de ovos, crocantes por fora, viscosos por dentro — disputam a mesa com as canudas de Beiriz, canelones fritos polvilhados de açúcar e canela que se desfazem ao primeiro toque dos dentes. E há os doces de São Pedro em forma de barco, homenagem discreta à vocação marítima da Póvoa. Para acompanhar tudo isto, a sub-região vinícola do Cávado produz brancos de loureiro e arinto — leves, com acidez viva e um travo mineral que pede marisco ou sardinha acabada de grelhar.
Trilhos entre moinhos e o caminho até ao mar
O Trilho de Beiriz (PR 2 PPV) é um percurso circular de seis quilómetros que atravessa campos de horta, bosques ribeirinhos e antigos moinhos, com vista sobre o estuário do Rio Ave. Caminha-se entre muros de xisto, ao som de melros e do vento que agita as copas dos eucaliptos, e o desnível suave torna o percurso acessível a famílias. De bicicleta, a ligação à Ecopista do Litoral Norte permite chegar a Vila do Conde em vinte minutos, pedalando rente à costa. E para quem segue a pé rumo a Santiago, o Caminho da Costa atravessa esta faixa de terra entre colinas e oceano, oferecendo a Beiriz como paragem de transição — nem praia, nem serra, mas o intervalo verde entre ambas.
Ao cair da tarde, quando as sombras das colinas se alongam sobre os campos de milho e o sino da igreja marca as horas com uma ressonância grave que parece vibrar no próprio granito, há um som mais subtil que persiste: o ranger de uma roda de moinho no Rio Alto, lento e ritmado, como se a própria freguesia respirasse ao compasso da água que nunca deixou de correr.