Artigo completo sobre Masseiras de Estela: agricultura medieval junto ao mar
Sistema agrícola milenar sobrevive nas dunas da Póvoa de Varzim, entre pinhal e Atlântico
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A luz rasante da manhã desenha sombras compridas nos sulcos paralelos da masseira. São regos cavados há séculos na duna, orientados norte-sul para captar o lençol freático e proteger couves e feijão-verde do vento salgado que sopra do Atlântico. Aqui, a menos de duzentos metros da rebentação, cresce alface com sabor iodado — sim, aquela que os da Póvoa chamam "alface de praia" e pagam mais caro no mercado. O sistema agrícola é medieval, mas não é museu: é o horto do sr. Arménio que ainda abastece a banca da esquina com couves e nabiças, e onde os netos vão na Páscoa aprender a plantar feijão.
Onde o pinhal encontra o mar
O topónimo vem de stella, estrela — mas ninguém em Estela chama isso à freguesia. Diz-se "vou para Estela" como quem vai ao café da esquina. O pinhal que resta é onde os miúdos aprenderam a andar de bicicleta e onde os pais iam colher pinhas para a lareira. Hoje em dia, o Parque Natural manda-se em tudo, mas os caminhos de terra ainda são os mesmos — e se encontrar o sr. António à porta da cabana, pode ser que lhe mostre onde fica o ninho dos melro-cinzentos.
O Trilho dos Masseiros é como aquela conversa de café: parece curto, mas leva o seu tempo. Seis quilómetros que começam na igreja — onde o padre ainda manda calar as crianças — e acabam nas dunas altas. Lá em cima, a vista é desimpedida: para norte, a praia até ao Rio Alto; para sul, as rochas da Redonda onde o pessoal vai pescar o safio. No estuário, o sapal é onde os velhos dizem que se apanhou enguia "do tamanho duma perna", mas isso já ninguém acredita.
Igrejas e promessas
A Igreja de Santa Maria é setecentista por fora, mas por dentro tem aquele cheiro de cera e roupa guardada que toda a igreja portuguesa tem. O retábulo dourado foi pago com esmolas dos pescadores — cada um dava o que podia, e quem não tinha dinheiro dava peixe. A Nossa Senhora do Ó, dizem, apareceu numa rede depois de temporal, mas o que é certo é que ainda hoje as mulheres da freguesia lhe levam bolachas de canela quando o mar fica bravo.
A Capela da Saúde, esse sim, é outra história. Fica no fim dum caminho de terra que parece não levar a lado nenhum, mas no primeiro domingo de maio enche-se de carros estacionados em segunda fila. A procissão é lenta — as velhas vão de véu preto, os rapazes vão de t-shirt às riscas — e acaba num arraial onde se come pão de ló que a D. Idalina faz desde 1973. A receita? "É segredo", diz ela, "mas o segredo é mesmo bater as claras em castelo e não ter pressa".
Sabor de quem sabe o que é fresco
A caldeirada da Tia Odete leva o peixe que o marido trazia logo às seis da manhã — se não houvesse cherne, levava safio; se não houvesse safio, levava raia. O segredo é o pimentão que ela faz no fim do verão, com pimentos do quintal que secam na corda da roupa. O arroz de marisco é dos Netos, mas só aos domingos, porque "marisco é caro e os miúdos comem como se não houvesse amanhã".
Há quem faça feijoada de búzios — é daquelas coisas que parecem estupidez até experimentar — e quem jure que o ensopado de enguias do sr. Alfredo é melhor que o do restaurante da Póvoa, "mas só se ele estiver de bom humor". O vinho verde vem das parras do sr. Jaime, que ainda faz o lagar na cave como o pai fez, e que diz que "o segredo é beber à primeira, senão azeda". A aguardente de medronho é daquelas que não se compra — oferece-se. Leva-se uma garrafa de vinho tinto, leva-se um pacote de biscoitos, e leva-se uma garrafa de medronho de volta. É como se faz.
Areia branca e água que faz dente
A Praia de Estela é larga, é verdade, mas deserta só fora de temporada. Em agosto, os estacionamentos enchem-se de matriculas de Espanha e de França, e os locais vão para a praia do Rio Alto "onde há mais espaço e menos gente a falar alto". O surf é bom — "mas só se souberes o que estás a fazer, que aqui o mar não perdoa" — e as escolas de surf são daquelas onde o instrutor é o primo do Zé que foi para o Brasil um ano e voltou com prancha e com piercings.
O campo de golfe é como aquele parente rico que ninguém convida para jantar: está lá, ocupa espaço, mas ninguém da freguesia joga. "É para os turistas", dizem, "e para os ingleses que compraram as casas de campo". O Caminho de Santiago passa mesmo à frente da padaria — os peregrinos param para comprar pão quente e perguntam se há café. Há: é o Café Central, onde o pastel de nata é caseiro e onde o dona Antónia ainda serve o café em chávena de loiça.
São Pedro e as coisas que não mudam
Nas Festas de São Pedro, a 29 de junho, a procissão ainda desce até ao mar. As lanchas enfeitam-se com ramos de giesta e com fitas de cores vivas, e os pescadores mais velhos vestem a camisa da marinha como se ainda fossem para o mar alto. À noite, as fogueiras na areia são divididas por grupos — aquela é dos pescadores, aquela outra é dos agricultores, aquela é dos jovens que trouxeram música do telemóvel.
Quando a última brasa se apaga e o cheiro a sardinha assada se mistura com o cheiro a pinho queimado, fica só o som da rebentação. É o mesmo som que os avós ouviam, e os avós dos avós. E é por isso que, quando alguém de fora pergunta "mas vale a pena ir a Estela?", a resposta é sempre a mesma: "Vai. Mas vai devagar, como quem vai a casa de um amigo. E leva um casaco, porque o vento à noite é tramado".