Artigo completo sobre Navais: entre campos verdes e o vento do Atlântico
Freguesia rural da Póvoa de Varzim onde tradição e natureza se encontram no litoral norte
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O sino da Igreja de São Pedro soa três badaladas sobre os campos verdes. O vento que vem do Atlântico — a menos de três quilómetros — traz consigo o cheiro a sal misturado com terra molhada e eucalipto. Navais acorda cedo, entre o canto dos galos e o murmúrio dos riachos que cortam os 334 hectares de paisagem rural integrada no Parque Natural do Litoral Norte. Aqui, o mar não se vê de todas as esquinas, mas sente-se em cada rajada, em cada nuvem baixa que passa.
A marca do navio
O nome vem do latim Navalis — navio. A freguesia surge em foral de D. Dinis de 1292, mas as raízes romanas estão lá: na Mina de Santa Quitéria há dois mil anos extraíam-se argamassas para construir Conímbriga. As casas antigas, em granito e madeira escurecida pelo tempo, testemunham séculos de agricultura e pesca, de trocas comerciais e procissões. A Igreja Paroquial de São Pedro, reconstruída em 1727 depois da tempestade que arrasou o templo medieval, ergue-se no centro com a sua torre sineira de 26 metros. A Capela de Nossa Senhora da Saúde, edificada em 1683, recebe no segundo domingo de setembro peregrinos que sobem a pé desde Rates, rosário na mão, numa tradição que se repete há mais de três séculos.
Junho e setembro: o calendário da devoção
As Festas de São Pedro, entre 28 e 29 de junho, transformam Navais. Os arcos de flores — este ano há 17, feitos com 1200 cravos e 800 margaridas — enfeitam as ruas, o cheiro a sardinha assada mistura-se com o fumo das fogueiras, e os bailaricos prolongam-se até às três da manhã. A procissão sai da igreja às 18h30 ao som da Banda Filarmónica de Navais, fundada em 1887, enquanto as crianças correm atrás dos andores. Já em setembro, a Peregrinação de Nossa Senhora da Saúde tem outro ritmo — mais lento, mais silencioso. É o tempo das promessas cumpridas, das missas cantadas pelo coro de Argivai, dos momentos de convívio à porta da capela onde o vento faz dançar as velas acesas.
Caldo verde e vinho fresco
À mesa, Navais não mente. O caldo verde fumega na tigela de barro, a couve cortada fina nada no caldo espesso de batata. O arroz de sarrabulho chega ao centro, escuro e denso, enquanto o rojão à moda do Minho estaleja na frigideira de ferro. Durante as festas, o forno comunitário — construído em 1932 com tijolos da antiga fábrica de Vila do Conde — trabalha sem parar: o pão caseiro sai com a côdea estaladiça, o miolo quente que se desfaz entre os dedos. E há sempre uma garrafa de Vinho Verde — branco, leve, fresco — produzido nas vinhas que rodeiam a freguesia, parte da região demarcada que se estende até ao Lima. O Espadeiro, casta típica daqui, dá vinhos com notas de frutos vermelhos que bebemos a 10ºC nas canecas de barro da Louça de Barro de Mafra.
Trilhos que levam ao mar
O Caminho de Santiago da Costa atravessa Navais em silêncio. Não é a rota mais conhecida, mas é das mais procuradas por quem quer fugir às multidões. Os trilhos rurais serpenteiam entre bosques de eucalipto e pinheiro, cruzam riachos estreitos, abrem-se em campos cultivados onde o milho cresce alto no verão. Passa-se pela Estrada Municipal 509, desce-se à Praia de Santo André, onde o nevoeiro levanta e avistam-se as dunas costeiras e o azul metálico do Atlântico. Os peregrinos param à sombra, bebem água da Fonte de Santa Quitéria, seguem em frente com a mochila às costas e a concha pendurada. São cerca de 800 por ano, segundo a Associação de Municípios do Ave.
A memória do pão
Há gestos que resistem ao tempo. O forno comunitário ainda aquece nas vésperas das festas religiosas, as mãos que amassam o pão são as mesmas que aprenderam com as avó, que aprenderam com as bisavós. Com 2.694 habitantes em 2021 — 364 jovens até aos 14 anos, 615 idosos com mais de 65 — Navais não é uma aldeia perdida. Tem EB1 de Navais com 47 alunos, tem o Café Central onde se joga à sueca às terças, tem o mini-mercado do Sr. Joaquim que abre desde 1983. Mas guarda, teimosa, as tradições que a definem: o cântico na procissão, o cheiro a lenha no forno, o vinho servido em caneca de barro. O pão de milho, que se fazia em tempos de guerra, voltou à moda nos últimos anos — a receita vem da D. Rosa, 89 anos, que ainda vai ao forno aos sábados.
Quando a tarde cai e o vento abranda, o som que fica é o do sino de São Pedro — três badaladas lentas que atravessam os campos verdes e chegam, quase, até ao mar.