Artigo completo sobre Póvoa de Varzim: sal, pedra e o pulsar do Atlântico
Cidade costeira com memória romana, farol histórico e tradição piscatória viva no Porto
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O primeiro sinal é o som. Antes de se avistar o mar, antes de a linha do horizonte se abrir naquela planura de água e céu que só o litoral norte oferece, ouve-se o rascar das redes sobre o cimento do cais, o motor grave de uma traineira a regressar, o grito das gaivotas em círculos sobre o porto. Depois vem o cheiro — iodo denso, alga húmida, maresia que se cola à pele e à roupa. A Póvoa de Varzim acorda todos os dias assim, a treze metros acima do nível do mar, quase ao rés da água, como se a própria cidade tivesse sido erguida pelo Atlântico e não contra ele.
Ruas com memória de Roma e de sal
As raízes escondem-se sob os pés. Vestígios de villae romanas costeiras e ruas de pedra que ainda guardam a geometria de uma ocupação antiga revelam que este lugar já era habitado muito antes de D. Manuel I conceder foral, em 1514. O topónimo carrega ecos pré-romanos, possivelmente celtas — Varzim, que o latim popular adoptou para baptizar a "vila nova" à beira-mar. Nos séculos XVIII e XIX, a Póvoa transformou-se em porto de pesca de primeira linha e estância balnear procurada pela burguesia do Porto. Em 1973, ganhou o título de cidade, mas a verdade é que já o era há muito: densa, com quase 2813 habitantes por quilómetro quadrado, ruidosa de vida e de ondas.
O Forte de São João Baptista, erguido no século XVII, ancora-se sobre as rochas como uma sentinela de granito escurecido pela salsugem. Mais acima, a Igreja da Lapa desenha volutas barrocas contra o céu, e é junto dela que o Caminho de Santiago da Costa faz uma das suas pausas — os peregrinos que vêm da orla, com a areia ainda nos sapatos, entram no adro e respiram antes de seguir para norte. O Farol de Regufe, classificado como Imóvel de Interesse Público, projecta o seu feixe sobre a rebentação nas noites de nevoeiro, e quem passa pela marginal ao anoitecer sente a intermitência daquela luz como uma pulsação.
O Casino onde Fernando Pessoa jogou com as palavras
O Casino da Póvoa, com a sua fachada arte-nova de linhas sinuosas, foi o primeiro casino legal a abrir em Portugal, em 1934. Fernando Pessoa frequentou-o e dedicou-lhe versos; Eça de Queirós, que aqui exerceu magistratura, deixou-se impregnar pela paisagem e pelos tipos humanos que mais tarde respirariam nas páginas de A Cidade e as Serras. António Nobre, o poeta simbolista do Só, viveu na Póvoa e aqui ficou sepultado — a sua sombra paira sobre os jardins do Casino ao pôr do sol, quando a luz rasante tinge de cobre as paredes do Cine-Teatro Garrett e os bancos de ferro forjado se aquecem com os últimos raios. José Régio exilou-se nesta cidade e escreveu parte da sua obra entre o rumor do mar e o silêncio das manhãs de Inverno. Quatro nomes maiores da literatura portuguesa, todos tocados por esta faixa de areia e granito.
Foguetes virados ao mar
No dia 29 de Junho, a Póvoa vira-se do avesso. As Festas de São Pedro trazem ao porto uma procissão que não se vê em mais nenhum ponto do litoral norte: imagens sacras desfilam em barcos ornamentados, enquanto milhares de foguetes são lançados do cais, e a missa do mar se celebra com o cheiro a pólvora misturado com a brisa salina. Ao anoitecer, largam-se balões que sobem lentos, pontos de fogo contra o azul-escuro do céu atlântico. Em Agosto, as Festas da Assunção ocupam a marginal com novena, ranchos poveiros e uma salva de foguetes virados ao mar — o estampido ecoa contra as fachadas e regressa em onda. Na primeira segunda-feira de Setembro, a Peregrinação de Nossa Senhora da Saúde leva os devotos até à capela homónima, com cânticos tradicionais e uma feira que cheira a churros, a cera derretida e a terra pisada. A Camisola Poveira — bordado geométrico que identifica cada família de pescadores — é património imaterial vivo e, curiosidade que poucos conhecem, inspirou o uniforme da Selecção Nacional de Futebol em 1928.
Caldeirada com vista para a rebentação
A gastronomia da Póvoa não se separa do mar. A Caldeirada Poveira — peixe-espada, bacalhau, batata, pimento e tomate a fundir-se num caldo espesso e avermelhado — é o prato-bandeira, servido em travessas fundas que chegam à mesa a fumegar. O Arroz de Marisco à poveiro carrega a intensidade do caldo de crustáceos; a sardinha assada no pão, comida de pé junto ao areal, escorre gordura sobre a côdea e liberta aquele fumo acre que marca o Verão. As Bolinhas de Berlim recheadas, vendidas na praia, são um ritual: açúcar a colar-se aos dedos, creme morno, areia nos pés. Para acompanhar, vinho verde branco da sub-região de Esposende-Baixo Cávado, fresco e mineral, que corta a gordura do peixe e abre o apetite para o Doce de Amêndoa da Póvoa.
Dunas, aves e uma ciclovia sobre carris antigos
A Praia da Lagoa, a Praia Redonda e a Praia do Carvalhido estendem areais dourados protegidos pelo Parque Natural do Litoral Norte, onde o sistema de dunas abriga flora rasteira e aves migratórias que param aqui nas rotas entre o Árctico e a África. A Ecovia Póvoa-Famalicão, com trinta quilómetros construídos sobre a antiga linha férrea, leva ciclistas pelo interior verde até se perderem de vista do oceano — e é nessa transição, quando o cheiro a sal dá lugar ao cheiro a eucalipto e a terra húmida, que se percebe a dupla identidade deste território. A Póvoa tem ainda uma das mais antigas associações de nadadores-salvadores do país, fundada em 1922, e os seus 205 alojamentos — de apartamentos a hostels — garantem que há sempre um tecto perto da rebentação.
Ao fim da tarde, quando a maré baixa descobre rochas cobertas de lapas e o sol desce atrás do Forte de São João Baptista, o ar traz um último resíduo de pólvora das festas passadas, misturado com sal e alga. É esse cheiro — que não existe em mais nenhuma cidade do norte — que fica entranhado na roupa quando se parte, e que meses depois, ao abrir uma mala esquecida, devolve intacta a Póvoa inteira.