Artigo completo sobre União das freguesias de Areias, Sequeiró, Lama e Palmeira
Quatro aldeias do Ave unidas pelo rio, campos de milho e arquitectura de Fernando Távora
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O comboio abranda na linha Porto–Guimarães e, pela janela, o vale do Ave abre-se em camadas: primeiro os campos de milho, depois os telhados de telha marselha entre latadas de vinha, e por fim o rio, largo e calmo, a brilhar sob a luz difusa de uma manhã de Setembro. Quem desce na estação ferroviária desta união de freguesias — Areias, Sequeiró, Lama e Palmeira — pisa um território onde os nomes dizem exactamente o que são. Areias, pelo sedimento fluvial que alimenta as várzeas. Sequeiró, do lugar onde se punham os produtos agrícolas a secar ao sol. Lama, pela argila húmida e pesada que cola às botas. Palmeira, talvez de um antigo proprietário, talvez de uma árvore que já ninguém recorda. Quatro identidades fundidas em 2013 por decreto administrativo, mas que continuam a medir-se pela distância entre a igreja de uma e o adro da outra.
São 6 369 pessoas (Censos 2021) espalhadas por 10,31 km² — uma densidade de 618 hab./km², bem acima da média nacional (112 hab./km²) — e contudo a paisagem engana, porque o que se vê são campos, bosques de carvalhos e sobreiros, e o murmúrio constante da água nos regos de rega que descem até ao Ave.
A linha de Fernando Távora no meio dos campos
Há um edifício que não se espera encontrar aqui: o Instituto Nun'Álvares, com a sua biblioteca e capela desenhadas por Fernando Távora entre 1981 e 1985. A mão do arquitecto portuense, rigorosa e depurada, surge entre o granito rural como uma frase moderna num texto antigo. A biblioteca, quando inaugurada a 8 de Dezembro de 1985, foi considerada uma das mais modernas do país — e o contraste entre o betão limpo das suas linhas e a pedra gretada das quintas agrícolas vizinhas continua a produzir um choque visual produtivo. Vale a pena entrar, deixar os olhos ajustarem-se à luz filtrada, e perceber como Távora dialogou com a escala minhota sem a trair.
O património religioso distribui-se pelas antigas freguesias como marcadores de identidade: a igreja de Santo António, em Areias, e a de São Tiago guardam retábulos barrocos que resistiram ao terramoto de 1755 e às reformas liberais do século XIX. A Capela de Nossa Senhora da Conceição (Lama) e a Capela de Nossa Senhora da Torre (Palmeira) completam uma rede devocional densa, que ganha corpo visível durante as festas de Verão. A ponte sobre o Ave, que liga este território a Vila Nova de Famalicão, é mais do que infraestrutura — é a costura entre dois concelhos, dois ritmos, duas margens. Construída em 1934, substituiu uma ponte de barcas que operava desde 1853.
Fogueiras de São João e o cheiro a sarrabulho
O calendário festivo define-se por três momentos fortes. A Festa de São João do Carvalhinho, a 24 de Junho, acende fogueiras que tingem de laranja as fachadas das casas — há dança, há concertinas, há o calor seco da brasa no rosto. Em Agosto, a Festa de Nossa Senhora da Assunção (15) arrasta fiéis de toda a região, com novenas que começam a 7, missas campais e procissões que descem ruas estreitas entre muros cobertos de hera. A Romaria de São Bento (11 de Julho) completa o ciclo, mais recolhida, mais íntima, com o som dos passos na calçada a ecoar contra o granito das igrejas.
É durante estas festas que a gastronomia se revela em toda a sua intensidade. O arroz de sarrabulho — escuro, espesso, com o travo ferroso do sangue de porco e o perfume da cominheira — é prato de mesa obrigatória. As papas de sarrabulho acompanham-no, e ao lado surgem os rojões à moda do Minho, os enchidos artesanais — salpicão, chouriço, morcela — que ainda se fazem em cinco quintas locais (as da família Abreu, em Sequeiró, são as mais procuradas), pendurados nos fumeiros onde a lenha de carvalho arde lenta. A broa de milho, densa e húmida, parte-se à mão. O Vinho Verde da região, fresco e ligeiramente agulhado, lava o palato entre garfadas de cozido à portuguesa ou de cabrito assado nas brassas de oliveira. Os doces seguem a tradição conventual: papos de anjo, trouxas de ovos, doces de abóbora com aquele brilho acetinado do açúcar reduzido — receitas que as avós guardam em cadernos de 1952, ano da primeira exposição agrícola da freguesia.
A água que cura e o caminho que continua
As Termas das Caldas da Saúde, conhecidas desde 1882 pelas propriedades medicinais das suas águas sulfurosas a 27 °C, acrescentam uma dimensão inesperada a este território de campos e igrejas. A água termal, quente e mineral, convida a uma pausa que o corpo agradece — sobretudo se os pés vêm moídos do Caminho Central Português de Santiago, que atravessa estas freguesias desde 2014 e traz peregrinos de 37 nacionalidades diferentes. Caminhas entre latadas de vinha e muros de granito cobertos de musgo, com a seta amarela a apontar sempre para norte, e percebes que este troço do Caminho é dos mais suaves: a altitude média ronda os 104 metros, o terreno ondula sem nunca agredir.
O Parque de Lazer de Nossa Senhora da Torre oferece sombra, bancos de pedra e o silêncio verde que só os carvalhos velhos sabem produzir. Os trilhos rurais que ligam as quatro antigas freguesias permitem descobrir a zona ribeirinha do Ave, onde garças-reais e mergulhões-de-crista pousam entre a vegetação ripícola, e os campos agrícolas tradicionais — feijão verde, milho, batata — se estendem em talhões geométricos até à margem do rio. A ribeira de Sever, afluente menor que nasce em Rates, corre discreta entre amieiros, alimentando os vales férteis onde a agricultura continua a ditar o ritmo dos dias.
O peso da broa na mão
Numa freguesia onde os idosos (65+ anos) são 1 737 e os jovens (0-14 anos) são apenas 653 (Censos 2021), o saber acumula-se nas mãos calosas de quem ainda participa nas vindimas comunitárias que começam a 15 de Setembro, de quem ainda sabe a diferença entre um chouriço de fumo de carvalho (seco em 3 meses) e um de fumo de castanheiro (seco em 5). A memória não está nos museus; está nos fumeiros da Cooperativa Agrícola de Santo Tirso (fundada em 1960), nos regos de rega construídos pelas "Comissões de Melhoramentos" dos anos 50, nas concertinas de 8 baixos que Joaquim Silva, de 82 anos, guarda em Sequeiró desde 1973.
Quando o sol desce sobre o Ave e a luz rasante transforma a superfície da água num espelho de cobre, o ar traz consigo o cheiro da terra argilosa de Lama misturado com o fumo das primeiras lareiras de Outubro. É um cheiro que não se replica em mais nenhum vale — pertence a este solo exacto, a esta margem precisa, a estas quatro aldeias que partilham uma junta mas guardam, cada uma, o seu próprio sino.