Artigo completo sobre Carreira e Refojos: onde o Caminho de Santiago cruza
Entre a Estrada Real e o vale do Leça, duas freguesias unidas pela história e pelos peregrinos
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O sino da torre da Igreja de Santiago ainda se ouve a duas terras de distância, sobretudo ao domingo quando o vento está nas costas. Dizem que os mais velhos na Parada conseguem distinguir o badalar das oito do das nove sem olhar para o relógio — truque de quem passou décadas a acordar com a missa das sete e meia.
Parada, Carreira, Refojos — nomes que soam a retrato de avó. O primeiro guarda a memória de quando aqui se cobrava portagem em couro e galinha: quem vinha da Estrada Real tinha direito a pão, cama e água, fizesse sol ou chovesse. Carreira é mesmo isto: um carreiro que virou estrada e depois nada, porque a nacional foi para o lado de lá do Leça. Sobraram os muros de pedra, as chaminés curtas e o cheiro a mosta em Setembro. Refojos foi vila antes de haver gasolina: tinha tribunal, cadeia e fonte pública. Hoje tem o café "O Padrão" onde o Zé Mário serve um bica como deve ser desde 1987 e onde, se chegarem antes das onze, ainda apanham os bolos de chuva quentes.
A igreja, o solar e o pilar
A Igreja de Santiago tem a torre torta — pouco, mas dá para ver quem percebe de nível de água. Lá dentro, o teto de madeira é um quebra-cabeças que o pároco diz ter mais de trezentas peças e nenhuma sobrando. Do lado esquerdo, a Casa da Menguela parece saída de um livro de escolar: tem escadaria de granito, balaustrada e uma capela que ainda recebe missa uma vez por ano, dia 8 de Dezembro, quando as famílias antigas vêm ver se as campainhas ainda tocam.
Já o pilar da Guerra Civil fica num desvio que só se encontra quem vá ao pé da Quinta do Outeiro. Está lá, meio esquecido, a lembrar que em 1832 por aqui dormiram soldados que nem sabiam bem onde estavam. Hoje serve mais de ponto de encontro para os caçadores contarem as perdizes que não apareceram.
O caminho que leva a Santiago e à vinha
O Caminho de Santiago passa mesmo pelo meio da aldeia. Os peregrinos aparecem de mochila aos ombros, cara de quem já caminhou demais e sapatos que dizem logo de onde vêm. A maihora segue o símbolo amarelo sem saber que metade das setas foram pintadas pelo Ti Armando, o do bar, depois de uma noite de domingo em que lhe pareceu boa ideia.
Os trilhos são os mesmos que a Ana usa para levar o rebanho ao outeiro e que o Carlos percorre de tractor quando vai podar a vinha. Terra batida, cheira a eucalipto depois da chuva e, se estiver mudo, ouvem-se as pedras a rolar debaixo das botas.
O que se come (e bebe) sem pedir conta
O vinho verde sai daqui, sim senhor. Não é coisa de loja de aeroporto: é do quintal do Sequeira, da esquina de baixo, que faz bagaço que arde direitinho e ainda guarda garrafas do ano em que o filho nasceu. Para acompanhar, há rojões que a dona Aurorinha tempera com o colorau que ela própria moi no moinho do irmão. O caldo verde leva couve da horta e um fio de azeite que o pai fazia; hoje é o neto que continua, mas a receita é a mesma: batata miudinha, chouriço de carne, e nada de truques de televisão.
Nas festas, a coisa ganha outro ar: Nossa Senhora da Assunção é em Agosto e é dia de comes e bebes à frente da igreja. Há filhós de massa fermentada, pão de ló que a Ilda faz na cuba de pau, e um cozido que começa a ser preparado na véspera porque senão a batata não fica no ponto. São João do Carvalhinho é mais para o final do mês: junta-se gente nos arraiais, toca-se acordeão e, à meia-noite, lá vai o balão de ar quente com os rapazes a correr atrás como se o fogo de artifício fosse levar a sorte.
O que fica, mesmo depois de ir embora
Quando o sol se põe atrás da serra, a luz doura as paredes caiadas e faz parecer que as casas estão sempre a despedir-se de alguém. O ar fica tão limpo que se percebe logo se o vizinho está a assar carne ou se é só a lenha húmida a fazer fumo.
E é ali, nessa hora entre o dia e a noite, que se entende por que é que ninguém se esquece disto. Nem os que foram para o Porto, nem os que foram para a França. A estrada vai-se, o sino fica — e ele badala sozinho, como quem lembra que há sítios que não precisam de nome na estrada para sabermos onde começaram as nossas histórias.