Artigo completo sobre Lamelas e Guimarei: Terra de Almocreves no Vale do Leça
Conheça a União das freguesias de Lamelas e Guimarei em Santo Tirso, Porto. História medieval, igrejas antigas e paisagens rurais junto ao rio Leça.
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O sino da igreja de Lamelas toca às sete da manhã e às sete da noite, horários que não mudaram desde 1952, quando o pároco António Ferreira fixou a rotina que ainda hoje o sacristão João Carvalho – 78 anos, 62 ao serviço da igreja – cumpre com a mesma pontualidade. O som perde-se no vale do Leça, mas antes de morrer na foz do rio atravessa a ER 240, sobe à Portela e desce à Veiga, avisando que em Lamelas e Guimarei o dia começa ou acaba com a mesma cadência de sempre.
Duas Memórias, Uma Freguesia
A união de Lamelas e Guimarei aconteceu em 2013, mas a história de cada lugar mergulha raízes no século XI. Lamelas surge documentada em 1044 no Rol das Igrejas do Rei, enquanto Guimarei aparece em 1045 como «villa Guimaredi in ripa Ave». Ambas pertenceram ao extinto concelho de Refojos de Riba do Ave até 1836, quando passaram para Santo Tirso. Guimarei guardou durante séculos a marca dos Brandões, senhores que mantinham ali uma abadia e um paço – as armas dessa linhagem ainda se veem gravadas no cruzeiro do adro da igreja, mandado erigir por D. João Brandão em 1593.
Lamelas foi terra de almocreves. A «Estrada Real» que ligava o Porto a Guimarães passava aqui: na Casa do Almocreve, hoje abandonada junto ao cruzamento da EN 207, dizem que dormiam até trinta homens e cinquenta mulas. Caminhar hoje pelo caminho de Vale Longo é pisar a mesma pedra que conheceu o trote dessas mulas – a calçada medieval conserva-se durante 1,2 km, entre o km 8 e o 9,2 da EN 240.
O Que Resiste ao Tempo
A Igreja Matriz de Lamelas ergue-se dedicada a Santa Eulália desde 1123, data da primeira escritura de couto. A fachada actual é de 1784 (inscrição na porta lateral), mas dentro do cruzeiro conserva-se um arco romano de 1200, em granito de Lamelas, com 1,85 m de altura. Perto, a Capela de Santo António, construída em 1656, está em ruínas desde o temporal de 1947 que lhe arrancou a abóbada. Ainda se reconhece a pia baptismal partida e, na parede sul, o nicho onde se guardava a imagem do santo.
O fontanário da Portela foi mandado construir em 1892 pela Câmara de Refojos – a data está na arquitrave. A Fonte do Lobo, já na fase final da estrada real, tem 1847 gravado na pedra; serviu os almocreves, depois os vindimadores e hoje abastece quem cultiva os campos de Vale Longo. No outeiro das Devesas sobrevive um eucalipto plantado em 1904: 3,2 m de perímetro, 35 m de altura, árvore que viu a estrada ser alcatroada em 1958 e o trilho de Santiago inaugurado em 2015.
Caminho e Calendário
O Caminho Central Português de Santiago atravessa a freguesia durante 4,3 km: entra na Portela, passa pela igreja de Lamelas, desce ao Leça e sai junto ao Cruzeiro de São Bento. Os peregrinos marcam 1 h 10 min entre o café O Pascoal (aberto às 7 h) e o Zé da Calçada em Guimarei. No livro de visitas da igreja, em 2023, assinaram 2 841 caminhantes – média de oito por dia.
O calendário festivo mantém-se desde 1950:
- 15 de agosto – Nossa Senhora da Assunção, Lamelas: missa às 11 h, almoço de convívio no pavilhão, ranchos às 15 h.
- 24 de junho – São João do Carvalhinho, Guimarei: procissão com cânticos ao São João, foguetes à meia-noite, bailho na aldeia até às 4 h.
- 11 de julho – Romaria de São Bento: partida 7 h da igreja de Lamelas, subida a pé até ao ermitério de 1717, missa campal, pão-de-ló e vinho branco.
- 13 de junho – Santo António, Lamelas: arraial organizado pela Associação Cultural, com sopas de Santo António, marchas populares e concurso de balões de papel.
O Rancho Folclórico de Santa Eulália ensaias às terças e sextas, 21 h, no salão da Junta. O grupo tem 34 elementos, faixa etária dos 9 aos 74 anos; aprendeu dez danças tradicionais recolhidas por José Maria Pereira (1912-1998) e reconstituiu o «Vira de Lamelas», extinto desde 1963.
Território de Vinhas e Memória
A freguesia está inserida na sub-região dos Vinhos Verdes «Sousa». Existem 42 viticultores, 28 ha de vinha em espaldeira e 11 em ramada. A casta dominante é a Loureiro (67 %); a colheita média é de 70 t/ano, entregues à cooperativa de São Miguel da Serra. A vindima começa normalmente a 15 de setembro; em 2023, 120 pessoas colheram durante três fins de semana.
O brasão da união de freguesias, aprovado em 2015, traz: campo de prata com cacho de uvas de vermelho, paquete de prata com três rocas de verde (Brandões), e bordadura com as sete torres de Lamelas (foral de 1514). O projeto foi do heraldista Nuno Gonçalves, natural de Guimarei.
A freguesia tem 1 567 residentes (Censos 2021), 176 menores de 15 anos, 361 maiores de 65. A escola EB1 de Lamelas tem 31 alunos (três turmas); a de Guimarei fechou em 2019. O comércio local resume-se a Café O Pascoal, Mercearia da Bia, Padaria do Zé e Farmácia Popular (aberta de segunda a sexta, 9 h-13 h / 14 h-19 h). O balneário do campo de Lamelas recebeu oito equipas da 2.ª divisão distrital na época 2023-24.
Quando o sol se põe atrás do Monte Crasto, o sino da igreja toca pela segunda vez. O eco perde-se na encosta, mas antes de desaparecer ainda alcança o Leça, avisa o peregrino que dorme no pátio da igreja e adormece quem está a fechar a janela da loja. Amanhã voltará a soar às sete, como soou ontem, como soará enquanto o João Carvalho subir as escadas da torre.