Artigo completo sobre Negrelos (São Tomé): vinhas e caminhos de Santiago
Freguesia de Santo Tirso entre colinas, vinhos verdes e tradições que resistem ao tempo
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O sino da igreja toca às onze e meia – hora que ninguém lhe pediu, mas que serve para marcar quem ainda não almoçou. O som perde-se pelas encostas, salta o muro do Sr. Armando e vai ter à boca da estrada, onde a malagueira do café-central já pôs o pastel de nata fora do prato. Negrelos (São Tomé) não é aldeia nem cidade; é um punhado de lugares – Carvalhinho, Cortinhol, Outeiro, Eiras – que o código postal resolveu tratar como se fossem um só. Dá 155 m de altitude, 3 755 residentes e uma densidade que só em papel assusta: na prática há mais vinha do que gente.
Terra de passagem e permanência
O Caminho Central da sua majestade Santiago passa por cá, mas os peregrinos andam de cabeça baixa a contar km e marcam GPS na fonte sem olhar para o nome da rua. Negrelos agradece – assim não estragam o ritmo, que é o mesmo desde que o tio Aníbal comprou o primeiro tractor: missa ao domingo, festa da Assunção com direito a sardinha a 3 € e, se o ano está generoso, fogo de artifício que acorda os cães ao comecar o Agosto.
O monumento nacional (a Igreja de S. Tomé) está na esquina da padaria: granito do bom, talho barroco, escadas que a minha avó subia de cabeça tapada. Hoje o GPS chama-lhe “POI religioso”; para nós é o sítio onde se combina o baptizado e se espera o funeral, tudo no mesmo banco.
Vinhas, fumo e tradição
Entre o Lima e o Douro há um bocado de Verde que nem os mapas explicam: é aqui. As vinhas não fazem cartão-postal; fazem-se aos bocados, entre a horta do sr. Albano e o pessegueiral da Dona Guida. O vinho sai gasoso, com acidez que limpa os dentes, e bebe-se de copo pequeno – se for de martelinho já sabemos que é turista. A uva grande vai para a cooperativa de Vila Meã; a sobra fica no lagar do ano passado, que o Zé Costa ainda não desmontou porque “pode ser que o neto queira ver”.
Estatísticas dizem que um em cada três cá tem mais de 65. Traduzindo: no banco do Jardim (são dois bancos e meio) há conversa de diabetes e de futebol, e quem chega novo traz sempre lugar debaixo do braço. Crianças há poucas, mas chegam para encher a escola EB1 até à terceira classe; depois vão para Santo Tirso de autocarro e só voltam aos fins-de-semana – aí já sabem o preço do gasóleo de cor.
Quotidiano sem pressa
Passear por Negrelos é ir descendo a estrada municipal 530, rebolando o carro nas lombas inventadas pela câmara para nos lembrar que o excesso de velocidade é coisa de estrada nacional. As casas antigas vestem granito à mostra; as novas pintam-se de cores que ninguém pediu, mas o regolfe faz-se ao domingo e o serviço de câmara traz tinta quando sobra orçamento. Cheiros: lenha queimada às sete da manhã, esterco quando o agricultor faz “as plantas”, bolo podre quando o figo cai e ninguém o quer para doce.
Não há Visit Portugal, não há gift shop, não há sinal de “tome aqui a selfie”. Há, sim, o café do Basílio que abre às seis e meia, o talho que mata o porco à sexta se fizer frio, e a máquina de multibanco que só aceita levantamentos até 20 € porque o papel acaba. Se quiser ver monumentos vá a Braga; se quiser perceber como se vive sem pressa, fique até ao fim do jantar – o sr. Faustino mostra-lhe a lua a partir do adro e garante que, lá no alto, é a mesma que os romanos viram quando aqui passaram a dizer que isto era caminho.
Quando o sino das nove toca, apagam-se as luzes das cozinhas e acendem-se as televisões. Negrelos fecha o portão, deixa o gato na rua e dorme. Não pede visitas, mas se aparecer leve sapatos bons: as ladeiras não perdoam e o silêncio, esse, é de borla.