Artigo completo sobre Vilarinho: Onde o Caminho de Santiago Cruza o Ave
Freguesia de Santo Tirso entre vinhas, peregrinos e festas que marcam o calendário rural do Norte
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O badalar do sino da Igreja de Nossa Senhora da Assunção espalha-se pelos campos cultivados de Vilarinho. O som viaja devagar sobre os telhados de granito, atravessa os bosques de carvalho e pinheiro, e alcança os peregrinos que sobem o Caminho Central Português, mochilas às costas, cajado na mão. Aqui, a 183 metros de altitude, na transição entre o vale do Ave e a serra da Cabreira, a paisagem organiza-se em socalcos onde a vinha dos Vinhos Verdes divide o espaço com hortas e milho. Os 526 hectares da freguesia respiram num ritmo próprio, marcado pelas estações agrícolas e pelas festas que pontuam o calendário.
Pedra, fé e caminho
A Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1977, ergue-se no centro da freguesia com a solidez discreta das construções rurais do Norte. As suas paredes grossas de granito guardam elementos barrocos no interior — talha dourada que contrasta com a austeridade exterior. A igreja documentada desde 1258 sofreu remodelações ao longo dos séculos, mas mantém a função que sempre teve: ponto de encontro, refúgio espiritual, marco na paisagem. Na encosta do Monte de São Bento, a 2 km do centro, a Capela de São Bento espera os romeiros que em 11 de julho sobem até lá, pés no saibro, respiração curta, promessas murmuradas.
Vilarinho insere-se numa rota que ultrapassa as suas fronteiras: o Caminho de Santiago por Gouveia. Peregrinos de várias nacionalidades atravessam a freguesia desde as 6h da manhã, quando o café no Largo da Igreja abre as portas. Deixam o murmúrio de conversas em alemão, francês e coreano misturado com o português. As casas de granito escuro, com portões de madeira gretada pelo tempo, testemunham a passagem. Dois alojamentos locais — a Casa do Correio e o Quartos da Fonte — recebem quem precisa de descansar antes de retomar a marcha para Rates.
Agosto, junho, julho: o calendário da comunidade
As festas estruturam o ano. A 15 de agosto, a Festa de Nossa Senhora da Assunção transforma a freguesia: a procissão sai da igreja às 17h ao som do Grupo Coral de Vilarinho, seguida por arraial no Campo da Feira onde o cheiro a sardinha assada se mistura com o fumo das fogueiras. A 24 de junho, a Festa de São João do Carvalhinho acende fogueiras que iluminam os rostos dos que dançam ao som de concertinas. 11 de julho traz a Romaria de São Bento, caminhada colectiva de 3 km até à capela, fiéis vindos de Refojos de Riba de Ave, água benta, promessas renovadas. Estas celebrações não são espectáculo para turistas — são o tecido vivo da comunidade, onde os 3587 habitantes se reconhecem.
Sabor que vem da terra
Nas cozinhas de Vilarinho, os tachos de ferro guardam receitas antigas. O arroz de sarrabulho ferve devagar durante três horas, sangue de porco e especiarias a criar uma textura densa. Os rojões à minhota, cortados em cubos de 2 cm, fritam no banha até ficarem dourados, acompanhados por batatas fritas em azeite e castanhas. O cozido à portuguesa, servido em tigelas de barro, reúne costelinha de porco, morcela de Arões e legumes da horta. Nas festas, aparecem as papas de abóbora com canela da Moita. Os doces — toucinho-do-céu da Padaria Central, filhós da Dona Alda, bolinhos de amor da Amélia — fecham as refeições. O vinho verde branco da Quinta do Outeiro, com 11% de álcool, corre nos copos de 200 ml.
Caminhar entre vales e serras
Os trilhos rurais de Vilarinho conduzem por caminhos de xisto entre campos cultivados e bosques. A vista alcança o vale do Ave e, ao longe, os contornos da serra da Cabreira. O Rio Ave passa a 500 metros, murmurando entre pedras cobertas de musgo. Não há áreas protegidas, mas há silêncio — o tipo de silêncio que só se enconstra depois das 22h, quando o último autocarro da STCP parte para Santo Tirso.
A densidade populacional de 68 habitantes por quilómetro quadrado revela uma freguesia que, apesar de rural, mantém vida. Os 426 jovens garantem vozes na EB1 de Vilarinho/Jazente, bicicletas nos caminhos, futebol improvisado no Campo da Feira. Os 649 idosos guardam memórias de quando a fábrica da Lousado contratava 400 pessoas, de quando os teares ocupavam as salas das casas até 1985.
Quando a luz da tarde rasga horizontalmente os campos, o granito das casas ganha tons alaranjados. As sombras alongam-se, os peregrinos seguem caminho, e o sino da igreja volta a tocar — chamada para a missa das 19h, eco que se repete desde 1723, som que fica na memória de quem passa e de quem fica.