Artigo completo sobre Alvarelhos: Castro Romano e Ponte Pênsil sobre o Ave
Muralhas milenares, miliário imperial e a primeira travessia metálica do Rio Ave na Trofa
Ocultar artigo Ler artigo completo
O eco dos passos na calçada cheva antes de nós: seixos do Ave, brancos como dentes de alvenaria, encaixam-se como um puzzle de avó. Subes e o castro aparece no alto, muralhas de pedra que já viram passar dois mil anos de gente — do Bronze Final ao tipo que foi ali buscar leite às cabras há meia dúzia de anos. Às nove da manhã o granito queimado de sol faz ranger os dentes, e o vento traz o cheiro do rio lá em baixo, escondido entre choupos como uma moeda debaixo do tapete.
O peso dos séculos no vale do Ave
Alvarelhos já constava em 979 no livro do Mosteiro de Moreira, escrito como alvarelios — campo claro, descampado onde o olhar vai até às costas da serra. O Castro é Monumento Nacional desde 1910, mas para quem cresceu ali é sobretudo o sitio onde se vão buscar amendoeiras para enfeitar a sala no 25 de Abril. Descobriram-se lá miliários, moedas, telha queimada; a estrada imperial ainda se segue no Google Earth, se zoomares o suficiente. Camadas de gente como camadas de roupa na cômoda: celtas, romanos, suevos, os avós. A pedra acumula-se como papéis em cima da secretária — ninguém se atreve a limpar.
Mais abaixo, a Igreja de Nossa Senhora da Expectação foi refeita em 1880 depois de um raio, fachada branca que faz de espelho aos milhais. Três cruzeiros setecentistas servem de marco de merendeiros: se chegas ao cruzeiro de pedra torta, sabes que já só faltam dez minutos a pé até ao café.
Ferro sobre água
A ponte pênsil abriu em 1894 e ainda oscila como um fio de vime quando passas. Cabos de aço, tábua de madeira, o rio de barro lá em baixo — substituiu a barca onde o teu avô ajudava a puxar a corda por um tostão. Parado a meio, sentes a vibração: é a ponte a dizer que está viva. No lugar do Bicho funcionou uma praia fluvial; hoje os salgueiros curvam-se sobre o Ave como gente a ver televisão na janela. As azenhas estão encobertas de silvas, mas se mexeres na roda ainda ouves o ranger dos dentes de engrenagem.
Sabores da terra baixa
Estamos a 97 metros de altitude, o que em Alvarelhos quer dizer: vinha, milho, broa que pesa na mão como tijolo. Vinho Verde do Vale do Ave, branco que pica a língua como refresco de limão. Na festa de Nossa Senhora das Dores, terceiro domingo de Setembro, o ar fica às riscas de fumegar. Vitela no forno de lenha, cabrito que desaparece mais depressa que bilhete para o Benfica, arroz de sarrabulho que agarra ao prato. A broa é densa, cor de tijolo cozido; o pão-de-ló caseiro desmaia-se no prato como criancinha a adormecer. No magusto o vinho novo queima a garganta e as castanhas estalam como chicletes no lume.
Onde a estrada romana ainda ressoa
O caminho de Santiago por cá é o mesmo que os legionários usavam, só que agora tem placas amarelas e bifanas no fim. Desces do Castro, tocas à ponte, passas o rio e segues. Nas vindimas, a eira enche-se de cestos de uva branca — Loureiro, Arinto, Trajadura — e o cheiro adocicado fica-te na roupa como perfume de ex-namorada. A procissão das Dores desce a estrada com a imagem coberta de flores, seguida de arraial que mete medo ao silêncio: bombas, acordeão, fogo-de-artifício que faz estremecer as vacas no curral.
Ao entardecer, quando o sol pica o granito e o Ave fica cor de sumo de pêssego, sobra o que sempre cá esteve: o sino da igreja a dar as seis, o rio a murmurar, o ranger da ponte ao longe. O resto é silêncio grosso, de terra que se aguenta sem reclamar.