Artigo completo sobre Bougado: granito romano e rococó no coração da Trofa
Da Via XVI aos caminhos de Santiago, entre marcos miliários e talha dourada de Nasoni
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O som chega antes da imagem. Um murmúrio baixo, constante, de água que passa entre pedras cobertas de limo — o rio Trofa a deslizar sob a sombra dos amieiros, num vale onde a terra é escura e fértil, e o ar da manhã carrega o peso húmido de quem vive a quarenta e nove metros de altitude, quase ao nível da planície aluvial do Ave. É preciso parar para ouvir, porque Bougado não se anuncia com estrondo. Revela-se em camadas: no musgo que escurece o granito dos cruzeiros, no cheiro a terra lavrada que sobe dos campos hortícolas, na silhueta de uma chaminé industrial que se recorta contra o céu cinzento do Minho como um dedo a apontar para outro século.
A estrada que Constantino conheceu
Há uma peça de pedra, guardada hoje na Casa da Cultura da Trofa, que muda a escala deste lugar. É um marco miliário romano — Monumento Nacional — pertencente à série Capela, com inscrições que referenciam o imperador Constantino. Foi encontrado junto ao traçado da antiga Via XVI, a artéria que ligava Bracara Augusta ao Porto, e a sua presença aqui não é acidental. Bougado era ponto de passagem há quase dois milénios, e continua a sê-lo: o Caminho do Norte de Santiago atravessa a freguesia, e os peregrinos de hoje calcam, sem o saber, um solo que já conheceu sandálias romanas. A continuidade é física, inscrita na própria terra. Quem percorre o Caminho sente-a nos pés — a mesma planície suave, os mesmos cursos de água a cortar o percurso, a mesma orientação norte que puxa o corpo para Compostela.
O rococó que Nasoni deixou no vale
A Igreja de Santiago de Bougado, classificada como Imóvel de Interesse Público, é uma surpresa de proporções. Vista de fora, a fachada setecentista integra-se na paisagem rural sem ostentação. Mas ao empurrar a porta pesada de madeira e entrar na nave, a luz muda. O interior rococó, atribuído a Nicolau Nasoni — o mesmo arquitecto que desenhou a Torre dos Clérigos —, desdobra-se em talha dourada que captura a pouca claridade que entra pelas janelas laterais, criando reflexos quentes sobre a pedra fria. A igreja foi construída no século XVIII, período em que a prosperidade agrícola do Vale de Bougado permitia este tipo de encomenda. Não é difícil imaginar o espanto dos lavradores ao verem, pela primeira vez, aquele ouro a arder na penumbra.
Do outro lado da freguesia, a Igreja de São Martinho de Bougado — referenciada já em 1258, nas Inquirições de D. Afonso III, como pertença do Mosteiro de Santo Tirso — conta outra história. Remodelada no século XVIII, guarda a memória da matriz medieval que lhe deu origem. Entre as duas igrejas, espalhados por caminhos rurais e encruzilhadas, cruzeiros como o dos Carvalhinhos e o de São Martinho pontuam a paisagem, e alminhas como as de Mosteirô preservam uma devoção popular que se lê melhor ao fim da tarde, quando a luz rasante aquece a cal e o granito destas pequenas capelas votivas.
A chaminé e o linho
Há uma outra Bougado, industrial e operária, que se lê na antiga Central de Maceração do Linho da Trofa — a Empresa Fabril da Trofa, classificada como Imóvel de Interesse Municipal. A chaminé, alta e cilíndrica, domina a linha do horizonte de quem se aproxima pelo vale. É um corpo estranho e ao mesmo tempo familiar, testemunho de uma época em que o linho do Minho alimentava fábricas e a região se transformava de agrícola em têxtil. Hoje a chaminé está em silêncio, mas basta fechar os olhos para quase sentir o cheiro acre da maceração, o vapor a subir das tinas onde as fibras se separavam.
Pelo rio, entre azenhas e sarrabulho
O trilho das Azenhas, ao longo do rio Trofa, é o melhor modo de conhecer a freguesia com o corpo inteiro. O percurso passa pela azenha do Sena, estrutura de pedra que aproveitava a força da corrente para moer o grão, e atravessa zonas onde a vegetação — pinhais, eucaliptais e, nas margens, uma cortina verde de vegetação ripícola — filtra o som do mundo exterior. Há momentos em que se ouve apenas a água e o próprio passo.
A fome que o caminho abre resolve-se à mesa com a tradição minhota na sua expressão mais franca: rojões à moda do Minho, papas de sarrabulho espessas e reconfortantes, feijoada com os enchidos da matança do porco. Nos doces, o toucinho-do-céu e os bilhares — de massa fina e recheio de ovos — pedem um copo de Vinho Verde branco, leve e fresco, produzido na região demarcada que envolve toda a freguesia. Os campos hortícolas do fértil Vale do Ave fornecem o resto: couves, nabos, batatas, tudo o que a terra escura e bem regada dá em abundância.
Vinte e um mil e um cruzeiro
Bougado alberga 21.374 pessoas — uma densidade de 745 habitantes por quilómetro quadrado que lhe dá um pulsar urbano sem lhe retirar o carácter rural. A Festa em honra de Nossa Senhora das Dores, com as suas procissões, missas e arraiais, é o momento em que essas duas identidades se fundem: o sagrado e o profano, a oração e o foguete, o andor e a barraca de farturas. As festas dos antigos padroeiros — São Martinho e Santiago — mantêm viva a memória das duas freguesias que, até 2013, existiam separadas e que hoje partilham um mesmo código postal e uma mesma identidade compósita. Nos conjuntos edificados de Mosteirô e Real, a arquitectura vernacular — casas de lavoura com varandas de madeira, muros de granito cobertos de hera — preserva a escala humana que os novos loteamentos vão lentamente alterando.
A manhã avança e o nevoeiro levanta-se do rio Trofa, descobrindo o vale centímetro a centímetro. Junto ao cruzeiro dos Carvalhinhos, uma gota de orvalho escorre pela cruz de granito e cai na base musgosa sem ruído. É um gesto mínimo, quase invisível — mas é exactamente assim que Bougado se revela: não de uma vez, mas gota a gota, para quem tiver a paciência de ficar a ouvir a pedra.