Artigo completo sobre Alfena: a vila portuguesa que nasceu da chapa
Conheça Alfena, Valongo: a vila que produziu 60% dos brinquedos de chapa em Portugal e guarda pontes romanas junto ao rio Leça.
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O som chega antes da imagem: um martelar miúdo, ritmado, metálico — como se alguém estivesse a dar forma a um pássaro dentro de uma oficina que cheira a tinta fresca e a limalha. Em Alfena, esse som tem mais de cem anos de memória. É o eco das mãos de José Augusto Júnior, que em 1921 começou a recortar chapas de flandres numa bancada qualquer e, sem saber, inaugurou a maior tradição de brinquedos de chapa do país. Entre 1940 e 1970, sessenta por cento dos brinquedos metálicos portugueses saíam daqui — pombas, ciclistas, carrinhas de caixa aberta, miniaturas de máquinas de costura. A Bruplast ainda as fabrica. E desde 2025, a Oficina do Brinquedo abre aos sábados para que qualquer pessoa pinte a sua própria pomba de chapa, com a tinta a secar ao ar livre enquanto o Leça corre ali perto.
O nome que ninguém mais tem
Alfena é caso único na toponímia portuguesa: o nome vem, muito provavelmente, do árabe al-henna, o arbusto da Lawsonia inermis que terá crescido com fartura neste vale. Uma segunda hipótese — menos botânica, mais marcial — liga-o a alfella, campo de batalha, recordando um combate medieval cuja data se perdeu. Na Idade Média, a freguesia chamava-se São Vicente de Queimadela; Alfena era apenas um lugar entre outros. Só em 30 de Junho de 1989, por impulso decisivo de Armando Gonçalves Merêncio, então presidente da Junta, a localidade foi elevada a vila. A 116 metros de altitude média e a apenas doze quilómetros do Porto, os seus 1552 hectares estendem-se num vale alongado onde o rio Leça entra pela nascente e sai pela poente, arrastando consigo salgueiros, amieiros e, nas manhãs de Inverno, um nevoeiro baixo que se agarra à superfície da água como algodão húmido.
Granito que guarda séculos
A Ponte de São Lázaro é o monumento que obriga a parar. Classificada como Imóvel de Interesse Público, conserva um tabuleiro lajeado com blocos romanos reutilizados na Idade Média — pedra sobre pedra, civilização sobre civilização. Ao lado, a Capela de São Lázaro, erguida em 1623, mantém as paredes frescas mesmo em Julho, com aquele cheiro a cal e cera velha que define os interiores religiosos do Norte. Mais adiante, a Ponte dos Sete Arcos desenha-se sobre o Leça com uma simetria que parece deliberada demais para ser funcional. Já a Capela de São Roque liga Alfena ao Caminho de Santiago, ancorando a freguesia numa rede de peregrinação que atravessa o Entre-Douro-e-Minho.
A Igreja Matriz de São Vicente, inaugurada a 23 de Agosto de 1964, sucedeu a templos medievais que o tempo e as intempéries foram desfazendo. Quem pedir ao sacristão, pode subir ao campanário: a vista abre-se em 360 graus sobre o vale, os telhados de Alfena, os pequenos planaltos graníticos que se estendem até à Serra de Valongo. Lá em baixo, o Museu Etnográfico — instalado no polo II do Centro Social Paroquial, cuja reconstrução pós-guerra o Padre António da Silva Pereira tanto impulsionou — guarda ferramentas agrícolas, imagens sacras e objectos litúrgicos dispostos sem cenografia excessiva, como se alguém tivesse simplesmente aberto a arca da avó e arrumado tudo com respeito.
Sarrabulho, fogueiras e uma procissão no rio
A mesa de Alfena é de sustância. Os rojões à moda local vêm acompanhados de papas de sarrabulho, densas e acastanhadas, servidas em tigela de barro que queima os dedos. O arroz de sarrabulho repete a lógica: nada se desperdiça do porco. O cabrito assa em forno de lenha até a pele estalar, e o caldo verde carrega fumados do Leça. Para terminar, o pão de ló de Alfena — húmido no centro, com crosta dourada que cede à colher — ou os suspiros e cavacas que aparecem nas bancas da feira mensal, ao primeiro domingo de cada mês. O doce de gema surge sobretudo nas romarias, ao lado de copos de Vinho Verde da sub-região do Vale do Leça, leve e com aquela acidez que limpa o palato entre garfadas de feijoada.
A Romaria de Santa Rita, em Junho, inclui procissão fluvial no Leça e fogueiras que crepitam junto à margem — o fumo mistura-se com o cheiro dos enchidos a grelhar e o som da banda filarmónica São Vicente, que toca desde 1958 e abre todas as procissões com o hino "A Alfenense". Em Julho, a Senhora do Amparo traz a bênção dos campos e uma feira que ocupa as ruas. E ao domingo seguinte ao 22 de Janeiro, as festas de São Vicente mantêm a procissão, a missa cantada e o arraial com a persistência de quem não precisa de multidões para justificar uma tradição. O Rancho Folclórico de Alfena mantém vivas as cantigas ao desafio e as danças do Entre-Douro-e-Minho, com aquele bater de tamancos no soalho que se sente no peito antes de chegar aos ouvidos.
Oito quilómetros ao nível da água
O Trilho do Leça liga Alfena a Ermesinde em oito quilómetros planos, integrados no projecto "Rio Leça+Verde". O percurso acompanha a margem arborizada: garças-brancas levantam voo rente à superfície, melros respondem-se de arbusto em arbusto, e com sorte um martim-pescador rasga o ar num traço azul-eléctrico. A ciclovia marginal estende-se até Água Longa — doze quilómetros de ida e volta — e o Parque de São Lázaro, ribeirinho e sombreado, oferece mesas de pedra para piquenique onde o som dominante é o da corrente do Leça contra os seixos. A norte, a zona agrícola resiste: pomares de citrinos, vinhas de enforcado e hortas familiares onde o milho ainda cresce, como cresce há séculos neste vale.
Alfena tem 14 438 habitantes, quase três mil deles com mais de 65 anos. Perdeu 5,1 por cento da população no último censo — o maior decréscimo do concelho. Mas há uma teimosa vitalidade nas mãos que, num sábado qualquer, pegam numa chapa de flandres, recortam a silhueta de uma pomba e a pintam de vermelho vivo. Quando a tinta seca, a pomba fica leve como se fosse voar sobre o Leça. É esse o peso exacto de Alfena: o de um brinquedo de chapa que cabe na palma da mão e carrega dentro de si o barulho inteiro de uma vila.