Artigo completo sobre Campo: onde a ardósia cobriu o Porto e o rio dita o ritmo
Freguesia vinhateira de Valongo preserva lagares de granito, pedreiras históricas e tradições rurais
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O primeiro som que se ouve em Campo não vem de nenhuma igreja. Vem do rio. O Ferreira corre de nascente a poente, rente ao granito polido das margens, e o murmúrio da água mistura-se com o farfalhar dos choupos que ladeiam os campos de milho. É manhã cedo, o ar ainda carrega a humidade nocturna e o cheiro a terra molhada sobe dos soutos de castanheiro que cobrem as encostas. A luz rasante desenha sombras longas sobre os telhados de ardósia — a mesma ardósia que, no século XIX, saiu destas pedreiras para cobrir o Palácio de Cristal do Porto. Caminhar por aqui é entrar num território onde a palavra latina campus — terra cultivada — ainda faz sentido literal: vinte e oito por cento da população residente trabalha em explorações agrícolas, uma proporção três vezes superior à média nacional.
O granito que esmaga a uva
A Igreja Matriz de São João Baptista ergue-se no centro da vila com a sobriedade de quem já viu passar três séculos. A construção setecentista, remodelada no século seguinte, apresenta um frontão despojado e um campanário sineiro cuja voz de bronze marca as horas e as procissões. Mas é nos arredores do templo que a identidade de Campo se revela com maior nitidez. Dispersos pela freguesia, os lagares de vinho em granito — blocos maciços, escurecidos pelo tempo e pelo mosto — continuam em uso. Há quem ainda pise a uva Loureiro em setembro, e o sumo escorre para as tinas com o mesmo gorgolejar que se ouviria há duzentos anos. Nas adegas familiares, como a Quinta do Vale do Ferreira, o vinho verde branco sai leve e fresco, com o frio mineral que a casta impõe. Integrada na Região Demarcada dos Vinhos Verdes, Campo produz também espumante natural — uma surpresa discreta que se prova melhor com um pedaço de chouriço de vinho cortado à faca, acompanhado pelo calor resinoso de um forno comunitário de pão, daqueles que em Sobrado e Campo se mantêm intactos.
A noite em que cristãos e mouros dançam juntos
Na noite de 23 para 24 de Junho, as ruas de Sobrado transformam-se num palco a céu aberto. A Bugiada e Mouriscada de São João de Sobrado é a única manifestação deste género que ainda se representa anualmente em Portugal, com origem no século XVIII e adereços transmitidos oralmente de geração em geração. Figuras fantasiadas — os bugios e os mouriscos — desfilam ao ritmo de bombos e gaitas de foles, recriando o combate entre cristãos e mouros num teatro popular de rua classificado como Imaterial de Interesse Municipal. O chão treme com a percussão, o ar cheira a pólvora dos foguetes e a sardinha assada das bancas. É uma energia densa, quase táctil, que se sente na pele antes de se compreender com os olhos.
Mas Campo não vive de uma só festa. No primeiro domingo de Maio, a Romaria de Santa Rita leva milhares de fiéis em procissão até à capela da santa, reconstruída no século XIX. Há bênção de rosas e distribuição do pão-de-ló de Campo — fofo, húmido, com aquele aroma a ovos e açúcar queimado que fica nos dedos. Na capela, uma campa de pedra com uma rosa esculpida alimenta a tradição local: dizem que a rosa "se abre" em milagre quando alguém faz um pedido de casamento no dia da romaria. Em Agosto, a Romaria da Senhora do Amparo acrescenta missa campestre, fogueiras e o chamado "jantar do campo" — sardinha assada, caldo verde e vinho verde, servidos ao ar livre enquanto o sol desce sobre o vale. Novembro traz o Ciclo do Castanho, com magustos comunitários e mostra de doces conventuais, e o fumo das castanhas assadas mistura-se com o nevoeiro que desce da Serra de Valongo.
Por baixo das giestas, as minhas dormem
O PR 6 "Trilho dos Mineiros" estende-se por oito quilómetros entre Campo, Sobrado e Jancido, serpenteando pelas antigas pedreiras de ardósia que deram emprego e identidade à freguesia. As galerias estão desactivadas, mas as paredes de xisto escuro ainda brilham com a humidade, e os blocos cortados empilham-se como páginas de um livro geológico. O percurso — cerca de duas horas e meia, dificuldade média — passa por moinhos de água recuperados, açudes e pesqueiras ao longo do Rio Ferreira, e sobe até ao miradouro da Serra de Valongo, onde o vale se abre num tapete de vinha, pereiros e carvalhal autóctone. Todo o concelho integra a Rede Natura 2000 pelo habitat de bosques de galeria, e entre os ramos é possível avistar corço, javali e numerosas aves ribeirinhas. No verão, o trilho termina naturalmente na praia fluvial das Lagoas, onde o antigo Poço das Lagoas — outrora o único abastecimento de água potável da freguesia — mantém uma temperatura constante de catorze graus mesmo em pleno Agosto. O choque da água fria no corpo quente é um ritual que os locais repetem sem cerimónia.
A mesa que junta o vale
A cozinha de Campo segue o calendário. De Outubro a Março, o caldo de castanhas com toucinho aquece as noites; nos dias de romaria, o arroz de sarrabulho aparece fumegante nas mesas. O bacalhau à moda de Campo — assado em forno de lenha com batatas, cebola e vinho branco — tem o sabor da brasa lenta e da madeira carvoejada. O rojão à minhota, confeccionado com entrecosto de porco, pimentão e sangue, é comida de trabalho, densa e sem floreados. Nos enchidos, o salpicão e a morcela de arroz compram-se directamente aos produtores, e as fatias de Campo — doce de ovos enrolado — fecham a refeição com uma doçura discreta, quase envergonhada. No restaurante O Campense, o pão-de-ló chega à mesa acabado de fazer, ainda a tremer.
O que fica
Ao final da tarde, sentado na Barroca da Gafaria com o vale do Ferreira em baixo, o som que permanece não é o do rio nem o do vento nos castanheiros. É o eco imaginado dos bombos da Bugiada — um ribombar surdo, quase subterrâneo, como se a própria ardósia de Campo vibrasse ainda com a memória de cada noite de São João. É esse o pulso desta freguesia de sete mil e seiscentas almas: não se vê, mas sente-se debaixo dos pés.