Artigo completo sobre Ermesinde: a freguesia que vive ao ritmo dos comboios
Conheça Ermesinde, em Valongo, onde a estação de 1875 ainda comanda o ritmo de vida e a antiga fábrica de cerâmica renasceu como centro cultural.
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O apito do comboio rasga o ar antes de se ver a composição. Na plataforma, o som repete-se a cada quinze minutos — para Braga, para Guimarães, para Marco, para o Porto. O chão treme de leve. Há um vaivém constante de gente que sobe e desce, mochilas ao ombro, sacos de plástico com compras da feira, passos rápidos sobre o cimento gasto. Ermesinde não se apresenta com pompa: apresenta-se com movimento. Quase quarenta mil pessoas em sete quilómetros quadrados — isto é, se saíres da estação e fores dar uma volta, vais esbarrar em meia-dúzia de conhecidos antes de acender o segundo cigarro.
O nome que veio dos suevos
Ermesinde já existia quando D. Afonso III a mencionou num foral, em 1258. O topónimo carrega a marca germânica de Ermesinda, nome feminino corrente entre suevos e visigodos — gente que por aqui se fixou séculos antes de haver fronteiras ou estações. Durante a Idade Média, a passagem da Estrada Real que ligava o Porto a Guimarães trouxe viajantes, comércio, poeira de cavalos. No século XIX, foi a vez do ferro e do vapor: a linha ferroviária chegou em 1875 e, com ela, as fábricas. Dezenas de unidades de lã e algodão instalaram-se nas imediações, a par de oficinas de cerâmica que transformaram a paisagem rural num cenário industrial. Ermesinde ganhou então o epíteto que lhe ficou colado: "a terra dos têxteis e dos comboios". As fábricas fecharam, quase todas. Os comboios, esses, continuam — e continuam a atrasar-se, mas isso é outra conversa.
Cerâmica transformada em cultura
A antiga Fábrica da Cerâmica — paredes grossas, estrutura que ainda cheira vagamente a pó mineral — renasceu como Fórum Cultural. Hoje acolhe exposições de arte, concertos, encontros comunitários. É um daqueles casos de reabilitação industrial que funciona porque não apagou o passado: os materiais originais convivem com a luz dos projectores e o silêncio das salas de exposição. A poucos minutos a pé, a Igreja Matriz de Santa Maria Maior ergue-se com a solidez de quem atravessou séculos — origem medieval, reconstruções setecentistas, fachada onde a pedra escurecida pelo tempo contrasta com a cal renovada. Mais acima, a Capela de Santa Rita espera, discreta, o seu dia grande: a Romaria de 22 de Maio, quando devotos de todo o país sobem até ali em procissão, entre cânticos, missas campais e o cheiro a cera derretida que escorre dos cirios. Quem vai pela primeira vez acha que é só mais uma procissão. Quem vai pela segunda sabe que é impossível não chorar quando o cortejo sobe a ladeira.
Máscaras de vermelho e negro
Se há uma festa que define Ermesinde — ou, mais precisamente, o São João de Sobrado — é a Bugiada e Mouriscada. Em Junho, milhares de pessoas enchem as ruas para assistir a uma encenação de origem medieval: danças, desfiles, e sobretudo as máscaras de papel-maché, pintadas de vermelho e negro, classificadas como propriedade imaterial de interesse municipal. Os bugios e os mourisqueiros avançam em grupos ruidosos, num confronto teatral entre cristãos e mouros que é simultaneamente espectáculo e ritual. O som dos tambores mistura-se com os gritos dos mascarados e o arrastar dos pés no empedrado. Quem assiste pela primeira vez sente a vibração no peito antes de entender o que se passa. Em Agosto, a Senhora do Amparo traz outro registo — procissão solene, fogueiras que crepitam ao anoitecer, bailes populares onde as gerações se cruzam. É como diz o meu avô: "A Bugiada é para ver, a Senhora do Amparo é para sentir."
Entre o caldo verde e o vinho verde
Nas tabernas e tasquinhas — algumas delas a escassos metros da estação, com esplanadas viradas para o ir e vir dos passageiros — a ementa não engana a origem. Rojões à moda do Porto, com a gordura a estalar na frigideira. Papas de sarrabulho densas, servidas em tigelas fundas que aquecem as mãos no Inverno. Cabrito assado no forno de lenha, com o aroma a infiltrar-se pela porta entreaberta. E sempre, sempre, o caldo verde a abrir refeição. Nos doces, os charutos de ovos e os suspiros de Santa Rita disputam a preferência, ao lado de um pão-de-ló húmido que se parte com as mãos. O copo de vinho verde da sub-região do Vale do Ave — fresco, ligeiramente agulha, com acidez que limpa o palato — é o companheiro natural de tudo isto. À sexta-feira, a feira semanal na Avenida Doutor Egas Moniz espalha bancas de fruta, roupa, utensílios e o burburinho inconfundível de quem regateia por hábito, não por necessidade. Procura a banca da dona Alice — tem os melhores tomates do concelho e diz sempre que sim, que aquela camisola te fica bem, mesmo que não fique.
O pulmão que respira entre prédios
Com quase cinco mil pessoas por quilómetro quadrado, Ermesinde precisa dos seus espaços verdes como de oxigénio — e tem-nos. O Parque Urbano estende-se por doze hectares de áreas ajardinadas, com lago, anfiteatro, pista de manutenção e parque infantil onde as famílias se instalam ao fim-de-semana. A relva húmida da manhã cede lugar, ao meio-dia, ao calor que sobe da terra e traz consigo o perfume das tílias. A norte, a pequena serra de Picheleira oferece trilhos entre eucaliptais e pinhais — nada grandioso, mas o suficiente para ver o aglomerado urbano lá em baixo e perceber como a cidade se encaixa nos vales da bacia hidrográfica do Rio Leça. É ali que os miúdos vão fumar o primeiro cigarro e os namorados vão para "falar". A ribeira de Santa Rita e os regos de Sobrado e da Gandra correm discretos entre as construções, criando bolsas de verde inesperado onde a água murmura sob a sombra das árvores.
O último comboio
Ao fim da tarde, sentado numa esplanada junto à estação com o copo de vinho verde a condensar humidade no vidro, o olhar fixa-se nos carris que se multiplicam em agulhas e curvas. Passa mais um comboio — o som metálico das rodas sobre os carris, o sopro de ar deslocado, o silêncio breve que se segue. Em Ermesinde, é este o compasso que marca os dias: não o sino da igreja, não o galo ao amanhecer, mas o apito que vem de longe e se perde na direcção do Porto. É o mesmo som que se ouve desde 1875. E enquanto houver quem pare para o escutar, esta terra saberá exactamente quem é — uma terra que não precisa de ser grande para ser de nós.