Artigo completo sobre Gião: onde o Ave desenha a história de Vila do Conde
Entre vinhas, estaleiros navais e capelas barrocas na margem do rio Ave
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O vento do Ave chega a Gião carregado de sal, mesmo que o mar fique a cinco quilómetros. Nas manhãs de nevoeiro, os campos de milho desaparecem por completo. Só o sol do meio-dia rasga o véu branco e revela as vinhas em espaldeira, os muros de granito e a linha prateada do rio. A 63 metros de altitude, o terreno impõe subidas curtas e descidas largas. Caminhos de terra batida ligam sobreiros centenários. Não há pressa. Nunca houve.
O rio que trouxe a vida
Gião aparece em documentos desde o século XIII. O nome pode vir de "Gianus", deus romano das passagens, ou de "Gaius", vestígio de ocupação antiga. O estuário ditou o destino da freguesia: pesca, construção naval, comércio fluvial. Entre 1920 e 1950, Domingos José Moreira - o Mestre Gião - construiu dezenas de barcos no estaleiro do Ave. A Ponte de Calves, em pedra do século XVIII, atravessa ainda o regato homónimo.
Pedra, madeira e devoção
A Igreja de Nossa Senhora da Guia está no centro da freguesia. Cal branca e granito cinzento. Retábulos dourados do século XVIII. Azulejos que contam histórias de santos e navegadores. A Capela de São Bento de Vairão guarda arquitectura rural de quintas senhoriais. A 11 de Julho, romaria atravessa campos com concertinas. Em Calves, a capela de São João Baptista mantém-se rodeada de casais de granito. Cinco espigueiros ainda secam milho ao vento.
O Caminho e a memória da água
O Caminho da Costa de Santiago atravessa 4,2 km de Gião. Entra pela ponte de Calves, sai pela de São Bento. Setas amarelas entre muros de pedra e carvalhos-alvarinhos. No Inverno, garças-reais nos caniçais do Ave. Melro-d'-água nas águas escuras. O Parque Natural do Litoral Norte protege dunas a oeste. Nas zonas húmidas, andorinhas-do-mar e juncos altos.
À mesa, a herança do forno e do rio
Cabrito assado com pele estaladiça. Arroz de sarrabulho - aqui chamado engolido - denso com sangue e miúdos. Caldeirada de enguias do Ave em vinho branco e coentros. "Sapos" de Gião: folhados com doce de ovos e amêndoa. Pão de ló de Vairão em tábuas de madeira. Vinho verde bebe-se fresco da jarra.
Festas que não se apagam
Primeira semana de Setembro: Festa de Nossa Senhora da Guia. Tasquinhas, bailaricos, procissões. Segundo domingo de Janeiro: Festa do Senhor dos Navegantes leva a imagem até ao rio. 23 de Junho: fogueiras de São João com sardinha assada.
No fim da freguesia, entre carvalhos, o Poço de Gelo. Buraco na rocha onde se guardava gelo para o peixe. Hoje vazio, coberto de musgo. A temperatura desce de repente no fundo. Ar gelado. Inverno que nunca saiu.