Artigo completo sobre Guilhabreu: vinhas, granito e memória medieval
Freguesia de Vila do Conde onde a vinha se ergue em solos de xisto e a história cruza ribeiras
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O som chega antes da imagem: o tilintar de um ancinho sobre granito, o murmúrio da ribeira lá em baixo, o sino da igreja que marca as nove da manhã. Guilhabreu acorda devagar, entre vinhas que trepam encostas de xisto e solos graníticos onde o carvalho-alvarinho ainda resiste. A luz da manhã ilumina os espigueiros de pedra junto aos casais senhoriais, brasões desgastados pelo tempo testemunhando séculos de propriedade fundiária. Aqui, a 123 metros de altitude média, o terreno ondula suavemente até às ribeiras de Guilhabreu e Vairão, linhas de água temporárias que desenham o ritmo das estações.
A história desta freguesia começou noutra margem administrativa: pertenceu ao concelho da Maia até 1870, quando um decreto real a transferiu para Vila do Conde, juntamente com Mosteiró e Vilar do Pinheiro. O topónimo remete para um senhor medieval — Guilherme Abreu, ou simplesmente Guilhabreu — que terá dado nome à jurisdição. Durante séculos, a economia assentou na pequena propriedade agrícola: milho, trigo, batata e, sobretudo, vinha. A Região Demarcada dos Vinhos Verdes encontra aqui solo fértil, e a associação de produtores fundada em 1958 continua a engarrafar brancos e tintos de perfil atlântico, com acidez vibrante e baixo teor alcoólico.
Pedra, talha e azulejo
No centro da freguesia, a Igreja Paroquial de São Tiago ergue-se com fachada setecentista e interior revestido de talha dourada barroca. Os painéis de azulejo que cobrem as paredes laterais datam do século XVIII, azuis e brancos contando episódios bíblicos em composições geométricas. No adro, um cruzeiro de pedra lavrada marca o ponto de encontro das procissões. A poucos quilómetros, duas capelas rurais — São Bento de Vairão e Nossa Senhora da Guia — servem de palco a romarias anuais onde o sagrado e o profano se misturam: missa campal, leilão de bolos, arraial com música ao vivo. A Festa de São Bento, a 11 de julho, atrai devotos de toda a região; a de Nossa Senhora da Guia, na primeira semana de setembro, encerra o ciclo agrícola com procissão noturna e foguetes que ecoam pelo vale.
Caminho de pedras antigas
Guilhabreu integra oficialmente o Caminho de Santiago da Costa. Muitos peregrinos fazem pausa no salão paroquial antes de retomarem a rota para Vila do Conde, doze quilómetros mais à frente, já com vista sobre o estuário do Ave. O trilho atravessa avenidas de eucaliptos centenários, bosques de sobreiro e pinhais que marcam a transição para o Parque Natural do Litoral Norte. Os caminhos pedestres sinalizados seguem a ribeira até ao Santuário de São Bento de Vairão, percurso de cerca de cinco quilómetros onde o único som é o ranger das botas sobre o cascalho e o canto intermitente do melro.
Sabores de forno e adega
Na cozinha local, o arroz de sarrabulho ferve ao lume brando, sangue de porco conferindo a cor escura e o sabor intenso que pede vinho verde tinto para acompanhar. Os rojões à minhota chegam à mesa dourados, acompanhados de castanhas e batata a murro. No inverno, o caldo verde ganha corpo com a chouriça de carne de Guilhabreu, enchido fumado em lenha de carvalho. O cabrito assado no forno de lenha perfuma as ruas nos dias de festa, e a açorda de bacalhau — pão embebido em azeite, alho e coentros — serve de reconforto nas noites frias.
Mas a verdadeira estrela é o pão-de-ló de Guilhabreu: fofo, alto, perfumado, com miolo húmido que se desfaz na boca. Vendido em feiras regionais, já foi oferta oficial da Câmara de Vila do Conde a visitas ilustres. Nas adegas de produtor, o vinho verde repousa em cubas de inox; a aguardente envelhece em cascos de carvalho, e o licor de erva-príncipe — planta aromática colhida nos lameiros — aguarda o momento de ser servido em cálice pequeno, digestivo e ritual.
A tarde cai devagar sobre Guilhabreu. O fumo de uma lareira sobe vertical no ar parado, o granito dos espigueiros ganha tons de cobre com o sol rasante, e a ribeira murmura lá em baixo, invisível mas constante. Não é preciso pressa: basta deixar que o corpo acompanhe o ritmo dos sinos, o cheiro a lenha, o sabor do pão-de-ló ainda morno nas mãos.