Artigo completo sobre Malta: onde o Caminho da Costa atravessa campos
Freguesia rural em Vila do Conde entre o litoral atlântico e o interior agrícola dos Vinhos Verdes
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O caminho ergue-se suavemente entre campos verdes e manchas de pinhal, onde o ar chega temperado pela humidade atlântica. Malta estende-se a sessenta e oito metros acima do mar, território de transição entre a faixa litoral e o interior agrícola, onde os muros baixos de granito delimitam propriedades que resistem à pressão urbana de Vila do Conde. Aqui, a densidade populacional ainda permite que cada casa respire, que os quintais guardem pereiras e hortícolas, que o silêncio da manhã seja pontuado apenas pelo canto dos galos.
No traçado dos peregrinos
O Caminho da Costa atravessa Malta como uma artéria antiga, conduzindo peregrinos rumo a Santiago de Compostela. Não há albergue monumental nem tabuletas turísticas excessivas — apenas a sinalização amarela pintada nos muros, que guia os caminhantes através de ruas estreitas onde o asfalto cede ocasionalmente à calçada irregular. Os passos ecoam diferentes conforme a estação: secos e rápidos no verão, abafados pela humidade nos meses de chuva. Quem caminha por aqui cruza-se com habitantes que já não estranham as mochilas às costas, o cumprimento breve em castelhano ou alemão, a pergunta sobre quantos quilómetros faltam.
O território pertence ao Parque Natural do Litoral Norte, embora a paisagem não se revista de espetacularidade imediata. É uma natureza doméstica, trabalhada: os campos de milho que alimentam o gado, as vinhas baixas da região dos Vinhos Verdes — cepa de enforcado cada vez mais rara —, os bosquetes de eucalipto que crescem rápido demais. A protecção ambiental manifesta-se mais na contenção do que na exuberância, no limite ao betão, na preservação de corredores ecológicos que permitem à fauna circular entre a costa e o interior.
Calendário de devoções
As festas religiosas pontuam o ano com regularidade que estrutura a vida colectiva. A principal celebração é em agosto, dia 15, com a procissão de Nossa Senhora da Guia que percorre as ruas principais antes da missa campal no adro da igreja. Durante três dias, a praça transforma-se em arraial com as castanhas doces da Conceição e o vinho branco dos caseiros de Malta.
São Bento de Vairão, a 21 de março, ecoa um passado monástico que já não se vê na paisagem actual. O nome remete para o antigo mosteiro beneditino cuja influência moldou séculos de propriedade agrária e devoção. Não restam ruínas monumentais em Malta, mas a invocação permanece, inscrita no calendário litúrgico e na memória dos mais velhos que ainda se lembram quando os frades vinham a cavalo desde Vairão.
Entre gerações
Cento e cinquenta e cinco jovens até aos catorze anos crescem neste território de pouco mais de dois quilómetros quadrados, número que contraria o envelhecimento acentuado de outras freguesias rurais. As crianças frequentam a escola primária de Malta antes de seguirem para o Agrupamento de Escolas de Vila do Conde, regressam à tarde para os quintais onde ainda há espaço para correr, para trepar às figueiras centenárias que resistem no Largo do cruzeiro.
Ao entardecer, quando a luz rasante dourada os telhados de telha e o vento traz o cheiro a terra molhada dos campos recém-lavrados, Malta revela-se naquilo que é: um território em negociação permanente entre o peso da tradição e a atracção da cidade próxima. O som dos sinos da igreja propaga-se sem obstáculos, alcança todas as casas, marca as horas com a insistência de quem sabe que há coisas que não se medem em quilómetros, mas em permanência.