Artigo completo sobre Tougues: Entre Vinhas Verdes e o Atlântico Norte
Freguesia de transição no Parque Natural do Litoral Norte, onde peregrinos cruzam campos e tradição
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O ar que sobe do Atlântico não traz só sal: traz o cheiro a algas secas que se agarra à roupa e o bater suave das gaivotas que ainda não decidiram se voam para a praia ou para o campo. Tougues não é mar, não é cidade — fica no meio, onde o asfalto da EN 13 ainda cede a caminhos de terra batida e onde o vento norte dobra os pinheiros como quem dobra guardanapos. São 334 hectares que cabem na palma da mão, mas que demoram o dia inteiro a percorrer se se parar para falar com quem está a podar a vinha ou a trocar os pés de feijão no campo.
Terra de passagem e permanência
O que protege a freguesia não é o parque em si — é o facto de ninguém ter pressa de cá vir. Os 1022 habitantes conhecem-se de nome e apelido; 144 ainda vão à escola, 182 já recebem a pensão na padaria, antes das sete da manhã, quando o pão sai do forno da Tia Alda. O milho sumiu quase todo, mas ainda há quem guarde sementes do que a avó plantava, aquelas espigas miúdas que serviam para alimentar os porcos e fazer a canja de Natal. O Caminho da Costa passa cá, sim, mas os peregrinos são poucos e vão com pressa — param só para beber água na fonte da Rua do Calvário e perguntam se falta muito para Rates. Os que cá ficam é que sabem que o melro começa a cantar às 5h15, mesmo no dia em que chove.
Festividades que pontuam o calendário
A Festa de Nossa Senhora da Guia é a 15 de agosto: começa com missa às nove, mas a procissão só sai quando o padre vê que o sol já baixou um bocadinho. Antes disso, as mulheres da confraria distribuem fatias de bolo de laranja e copos de vinho branco que ninguém recusa. A filarmónica toca marchas que se confundem com as dos anos 70 — a mesma corneta, o mesmo bombardino, o mesmo rapaz de Aguda que agora já tem 45 anos. Em São João, os rapazes atam uma corda na torre da igreja para lançar o balão de ar quente — só um, porque o combustível é caro, mas chega para todo o céu vibrar durante três minutos.
Paisagem de vinhedos e horizontes abertos
As vinhas não são para visitas guiadas. São de quem herdou o terreno do pai e ainda consegue fazer 600 garrafas por ano — uvas brancas, maiormente, que vende a 3 euros na porta de casa. O cheiro a mosto paira duas semanas por ano, entre 20 de setembro e 5 de outubro, altura em que as famílias almoçam no campo, debaixo da ramada improvisada com sacos de plástico, e os netos aprendem a pisar uvas com os pés descalços. Não há lojas de souvenirs, nem provas pagas. Quem quer levar uma garrafa bate à porta do Sr. Joaquim: ele aparece de chinelos, limpa a garrafa com a t-shirt e ainda dá dois limões do quintal.
O som da água e do silêncio
O único monumento é a cruz de granito da Encruzilhada, erguida em 1892, com os nomes das vítimas da febre tifóide que ninguém hoje decora. O resto é o que se ouve: o rego da Ribeira de Friestas a correr debaixo da ponte velha, o rangido da porta do celeiro que o António não fecha há trinta anos, o cão do Sr. Albano que ladra sempre que o autocarro da escola passa às quatro da tarde. À noite, quando o nevoeiro desce, o silêncio é tão grosso que se escuta o relógio de parede da casa ao lado. É nessa hora que Tougues deixa de ser ponto no mapa e passa a ser sítio onde se pode estar sem ter de dizer nada.