Artigo completo sobre Vilar e Mosteiró: feira mensal e memória romana
Duas aldeias unidas em 2013 guardam feira tradicional, dólmen e museu telefónico em Vila do Conde
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A primeira quarta-feira do mês amanhece com o murmúrio de vozes no Largo da Lameira. Antes das oito, já há quem desdobre tabuleiros de madeira, exponha couves e nabos ainda com terra agarrada às raízes, alinhe galinhas em gaiolas de arame. A feira de Mosteiró é assim desde sempre — uma geometria de gestos repetidos, mãos que pesam batatas sem balança, conversas que se estendem mais do que a transacção. O cheiro a pão acabado de cozer vem do forno da padaria Silva, aberta desde 1952, e mistura-se com o café que escorre na tasca da Dona Rosa, onde o galão ainda vem em caneca. O granito do Cruzeiro da Lameira, erguido em 1756, testemunha tudo com a paciência de quem já viu duzentos e sessenta e oito anos de manhãs iguais e diferentes.
Pedra que fala latim
A presença romana deixou aqui mais do que fragmentos de tégula enterrados. Sob a Igreja de São Gonçalo, o chão guarda telhas e cerâmicas que datam de quando estas colinas faziam parte de uma via que ligava o Porto a Braga. Em Vilar, a história recua mais: a Mamoa de Ínsua é um dos monumentos megalíticos mais importantes de Vila do Conde, com vestígios de reocupação durante a Idade do Bronze. A pedra do dólmen, coberta de líquenes que rangem debaixo da unha, ergue-se numa elevação onde se ouve o mar quando a tramontana sopra — 44 metros acima do nível médio, altitude suficiente para ver o Douro naqueles dias de céu limpo que só acontecem em Janeiro.
Vilar aparece num diploma de 908, nome que vem do latim villare, aldeia. Mosteiró surge em 1059, ligado ao Mosteiro de Ave-Maria do Porto. Ambas as localidades foram autónomas até 2013, quando a reforma administrativa as juntou. A Igreja de Santa Maria, em Vilar, mantém a sobriedade das construções que atravessaram séculos sem alardes — paredes caiadas que precisam de pintura de dois em dois anos, portal em arco onde os miúdos brincam à apanhada, silêncio denso no interior onde a luz entra filtrada por vitrais que a paróquia vai mudando quando há dinheiro.
Fios de cobre e memória
No Museu da Comutação Manual, inaugurado em 1983 e mantido pela Portugal Telecom, o tempo é medido em fios de cobre e centrais telefónicas obsoletas. As máquinas ocupam salas inteiras, relés e comutadores que já não clicam, painéis de baquelite onde a Tia Albertina ligava chamadas para o Porto durante décadas. É um dos espaços mais insólitos da região, dedicado a uma tecnologia que parece pré-histórica aos olhos de quem só conheceu o telemóvel. As crianças olham para os aparatos com a mesma perplexidade com que observariam a Mamoa de Ínsua — ambos, afinal, ruínas de sistemas de comunicação que já não existem.
Caminho que não apressas
O Caminho de Santiago da Costa atravessa a freguesia, trazendo peregrinos que caminham do Porto a Santiago de Compostela. Aqui, o trilho não tem o dramatismo das arribas nem a monumentalidade urbana — é um caminho de campos agrícolas onde se vêem os agricultantes a regar à mão, muros de pedra solta que caem quando chove muito, caminhos de terra batida onde os pés levantam pó fino nos dias secos. A integração no Parque Natural do Litoral Norte assegura que a paisagem rural se mantém protegida, com pequenos cursos de água que correm entre bouças e hortas onde ainda se planta milho para a sopa e feijão para o enturmado.
As festas religiosas pontuam o calendário: Nossa Senhora da Guia em Agosto, quando se come caldo verde com pão de milho; São Bento de Vairão em Julho, com o rancho a tocar na alameda; São João, com as fogueiras a cheirar a sardinha queimada; Senhor dos Navegantes, quando o rio traz o barco com o santório. São celebrações que enchem as ruas com andores que pesam uma tonelada, foguetes que fazem as orelhas zumbirem durante três dias, mesas compridas onde se come chouriça assada no pão de caco e bebe vinho verde da Cooperativa de Vila do Conde. Em Mosteiró, a farmácia mais antiga do país continua a servir a população de 2398 habitantes — 585 deles com mais de 65 anos, que vêm buscar as gotas para a tensão e ficam a conversar sobre o tempo que já não é o mesmo.
A luz da tarde pousa oblíqua no Cruzeiro da Lameira, destacando as letras gravadas no granito: 1756. Um tractor passa devagar pela estrada, levantando cheiro a gasóleo e terra revirada. A feira já terminou, os tabuleiros já foram recolhidos, mas no Largo da Lameira fica o rasto de folhas de couve pisadas, uma caixa de madeira esquecida do Zé das Couves, o eco de uma manhã que se repete todas as quartas-feiras desde que a minha avó me levava de mão dada para comprar os pintos.