Artigo completo sobre Avintes: broa com cruz de São Pedro e xisto no Douro
Onde a tradição da broa DOP se cruza com terraços de xisto, cais fluvial e pontes históricas
Ocultar artigo Ler artigo completo
O cheiro chega antes de tudo o resto. Antes da primeira curva na estrada, antes de se avistar o rio ou as torres da Igreja Matriz, há um aroma denso de milho e centeio a cozer em forno de lenha que paira sobre Avintes como uma assinatura. Na Padaria Climana, de segunda a sexta, as mãos dos padeiros moldam peças de 1,2 quilogramas — peso regulamentado pela associação de produtores desde 1996 — e marcam cada uma a ferro quente com a cruz de São Pedro antes de a empurrar para o calor. A broa sai escura, compacta, com uma crosta que estala sob a pressão dos digitais. Desde 1996, a Broa de Avintes carrega Denominação de Origem Protegida, mas foi António da Silva Araújo, industrial que fundou a Padaria Central em 1926, quem primeiro a levou para além dos limites da freguesia. Hoje, como então, parte-se à mão e come-se ainda morna, com manteiga a derreter nas cavidades da massa.
O xisto que desce ao Douro
Avintes ocupa 882 hectares de terraços de xisto na margem sul do Douro, a uma altitude média de 93 metros, e o terreno inclina-se em socalcos onde crescem vinha de tabela, oliveiras e pomares de laranja. Os caminhos de pedra que ligam a encosta ao rio são estreitos, ladeados de muros cobertos de musgo e líquenes — o pé reconhece a irregularidade das lajes antes de os olhos se habituarem à sombra das latadas. Lá em baixo, na Praia Fluvial do Areinho, o areal abre-se junto ao estreito de Avintes com cais de embarque, churrasqueiras e um campo de futebol onde, ao fim de semana, as vozes dos miúdos ecoam contra a água. É daqui que partem os passeios de barco rabelo — rio acima até à Régua ou simplesmente até à Ribeira do Porto, com o sol rasante a dourar a superfície castanha do Douro.
Do cais, erguem-se no horizonte duas estruturas que contam mais de um século de engenharia: os pilares sul da Ponte Maria Pia, a primeira ponte em arco metálico do país, projectada por Gustave Eiffel e Théophile Seyrig e inaugurada a 4 de Novembro de 1877, e a Ponte de São João, de 1991, que lhe sucedeu na função ferroviária. A Maria Pia, desactivada desde 1991 mas intacta, mantém a sua silhueta de ferro oxidado contra o céu — um esqueleto elegante que se recorta com nitidez ao entardecer.
Cruzeiro, pelourinho e touradas que já não existem
O Largo do Cruzeiro guarda o centro antigo da vila: um cruzeiro granítico manuelino e a base medieval recuperada do pelourinho, símbolo do foral concedido por D. Manuel I em 1514. Até 1926, este mesmo largo acolhia touradas numa praça improvisada — depois, converteu-se em jardim público, e hoje é o silêncio das árvores adultas que domina. A Igreja Matriz, templo barroco construído entre 1741 e 1760, exibe retábulo em talha dourada e painéis de azulejos setecentistas cujo azul-cobalto absorve a luz que entra pelas janelas altas. Subindo pela Rua 5 de Outubro, os solares oitocentistas da encosta — casas senhoriais de granito com varandas de ferro forjado — revelam o passado de uma freguesia que, apesar da vocação agrícola, sempre manteve uma pequena aristocracia rural ligada ao comércio fluvial.
Caretos, procissões e um dialecto que resiste
As Festas de São Pedro, no último fim de semana de junho, trazem missa cantada, ranchos folclóricos e fogo de artifício junto ao rio. Em setembro, as Festas em Honra de Nossa Senhora da Saúde culminam numa procissão fluvial centenária: a imagem segue em barco rabelo, atravessa o Douro até ao cais da Ribeira e regressa com a noite. No segundo domingo de maio, a Romaria de São Gonçalo e São Cristóvão parte a pé da Igreja Matriz até à Capela do Senhor do Palheirinho, santuário setecentista onde se vendem os bolinhos de São Gonçalo — massa de ovos e açúcar, doçaria de raiz conventual. E no Carnaval, os Caretos de Avintes ressurgem com máscaras de alder ou freixo pintadas de vermelho e trajes de farrapos coloridos, numa tradição de entrudo minhoto que sobrevive no perímetro urbano de Gaia.
Entre os mais velhos, sobretudo no campo, persiste o «minders», um dialecto local que mistura léxico milenar do Douro com expressões castelhanas antigas — Avintes é a única freguesia do concelho onde ainda se ouve "mindinho" para menino e "trujo" para trago.
A ciclovia, a petinga e o miradouro
A Ciclovia do Douro liga Gaia a Avintes ao longo de sete quilómetros de passadiços de madeira e túneis de árvores autóctones. Aluga-se bicicleta eléctrica na Estação de General Torres — edifício ferroviário de 1887 reconvertido em interface do Metro do Porto — e pedala-se com o rio sempre à esquerda. Avintes integra dois percursos do Caminho de Santiago — o Caminho Central Português e o Caminho da Costa — e não é raro cruzar peregrinos de mochila ao ombro na descida para o Areinho.
Para almoço, a Mesa com Tradição serve petinga frita com arroz de feijão, acompanhada de tinto leve em jarro e, claro, broa cortada em fatias grossas. Na Pastelaria Cruzeiro, o caldo verde chega fumegante, denso, com rodela de morcela de arroz a flutuar à superfície. À tarde, o trilho do Penedo — dois quilómetros de subida entre amieiros e salgueiros do vale do Esteiro — conduz a um miradouro com vista panorâmica sobre o Porto e a Serra do Pilar. Leve binóculos: os barcos rabelo lá em baixo parecem maquetas na corrente.
Maria de Lurdes Guedes, professora e etnógrafa nascida na Rua da Igreja em 1925, passou décadas a recolher cantigas tradicionais e a organizar o arquivo fotográfico da Casa do Povo. Joaquim Carvalho, ex-ciclista que representou Portugal nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, é hoje embaixador voluntário da ciclovia. Avintes, com os seus 10 836 habitantes, mantém esta capacidade de produzir gente que olha para o sítio onde nasceu e decide ficar — ou voltar.
Na encosta, ao fim da tarde, o forno da Climana volta a acender. O fumo branco sobe direito no ar parado e mistura-se com o cheiro do rio. Numa laje perto do cais, se se procurar bem, ainda se lêem inscrições em francês deixadas por refugiados que trabalharam nas pedreiras durante a Grande Guerra. As letras estão gastas, quase ilegíveis, gravadas em xisto escuro — mas resistem, como a broa, como o «minders», como a marca a ferro da cruz de São Pedro que nenhuma máquina substituiu.