Artigo completo sobre Canelas: pelourinho manuelino e broa de pedreira
Freguesia de Vila Nova de Gaia onde o granito moldou a paisagem e a identidade ao longo de séculos
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O som chega antes da imagem. Um martelar ritmado, quase percussivo, ecoa entre muros de granito cinzento e escorre pela encosta abaixo até à Ribeira Grande. Durante séculos, foi este o pulso de Canelas — o bater do ferro contra a rocha, a extracção lenta e metódica de blocos que desciam para o Porto e se tornavam calçada na Ribeira, degraus nas igrejas, ombreiras nas casas senhoriais. Hoje, o martelar calou-se nas pedreiras, mas a pedra continua a falar. Está nos cruzeiros, nos muros dos socalcos, nas lajes polidas do largo do Curro, onde se ergue o único pelourinho manuelino conservado em Vila Nova de Gaia — uma coluna atarracada, gasta pelo vento atlântico, que já viu passar procissões, feiras de gado e, mais recentemente, peregrinos a caminho de Santiago.
A cana que deu nome ao lugar
O topónimo vem do latim cannellus — pequeno canudo —, referência à cana comum que crescia, e ainda cresce, nas margens do Rio da Granja. A freguesia existia antes da nacionalidade, dizem as tradições locais, mas só em 1836 ganhou reconhecimento oficial. Entre esses dois marcos, a vida organizou-se em torno de três eixos: a pedra, a terra e a água. As pedreiras das Lages forneceram granito desde o século XVI. A agricultura de sequeiro alimentou gerações com milho, centeio, nabos e couve. E as ribeiras moveram moinhos — como o Moinho de Água da Ribeira Grande, actualmente em recuperação — que transformavam o grão em farinha para a broa que ainda hoje se coze nas Lages, densa, húmida, com uma crosta que estala sob os dentes.
A meio do século XX, a indústria corticeira e as fábricas de embalagens metálicas trouxeram outro ritmo. Joaquim Francisco Pinto, industrial corticeiro nascido na freguesia em 1876, acumulou fortuna suficiente para financiar a avenida que leva o seu nome — gesto de mecenas que redesenhou a malha urbana. Canelas cresceu, densificou-se — hoje abriga quase catorze mil habitantes em pouco mais de sete quilómetros quadrados —, mas nunca perdeu a espessura rural que a distingue das freguesias mais litorais de Gaia.
Trilobites sob os pés
A Pedreira das Lages é, talvez, o lugar mais improvável desta freguesia. Onde antes se arrancava granito para construção, o chão revela agora pegadas de trilobites do Ordovícico — criaturas marinhas que calcaram este solo há mais de quatrocentos milhões de anos. O geossítio funciona hoje como equipamento cultural, com um Centro de Interpretação que expõe ferramentas de canteiro, maquinaria pesada e painéis sobre a geologia local. Caminha-se entre afloramentos de rocha nua, cinzenta com veios de quartzo leitoso, e o silêncio ali é diferente do silêncio da mata: é mineral, seco, ampliado pelas paredes verticais da antiga exploração.
A poucos minutos a pé, a paisagem muda radicalmente. A Mata de Canelas, classificada como Paisagem Protegida Local, é um bosque autóctone onde carvalhos e medronheiros filtram a luz em tons de verde-escuro e dourado. O ar cheira a terra molhada e a casca húmida. O Trilho da Levada, com cerca de três quilómetros, liga socalcos agrícolas a moinhos antigos, e é nesse percurso que se entende a lógica hidráulica da freguesia — a água conduzida, domesticada, distribuída por levadas de pedra até às parcelas de vinha onde ainda se cultivam castas de Loureiro e Azal, vinho verde de subsistência, sem rótulo nem denominação formal, bebido em malgas de barro nas tascas do lugar.
Fogueiras, línguas de São Gonçalo e um jogo de pedras polidas
Na primeira semana de Junho, a Romaria de São Gonçalo e São Cristóvão transforma Canelas. A procissão parte da Capela de São Gonçalo — construção do século XVI, paredes caiadas, interior fresco mesmo no calor de Junho — e percorre ruas onde o cheiro a sardinhas na brasa se mistura com o fumo das fogueiras. O leilão de línguas de São Gonçalo, doce conventual em forma de língua, é o momento alto: as vozes sobrepõem-se, os lances sobem, e o riso corre fácil entre vizinhos. Em Agosto, as Festas de Nossa Senhora da Saúde trazem a procissão luminosa e o arraial nocturno. E nas noites de São Pedro, a 28 e 29 de Junho, os manjericos perfumam as soleiras enquanto os bailaricos se estendem até de madrugada. Em Dezembro, a Ceia das Lages reúne a comunidade em torno de um presépio vivo e de tigelas de caldo de nabos que aquecem as mãos antes de aquecerem o estômago.
Canelas guarda ainda uma singularidade: é a única freguesia do Grande Porto onde se pratica o jogo da malha de pedra, modalidade ancestral que usa pedras de granito polidas em vez dos discos metálicos habituais. O gesto é o mesmo — lançar, medir, discutir —, mas o peso e a textura da pedra na mão conferem-lhe uma solenidade quase ritualística. Quem quiser ver, é na Lameira, ao domingo depois do almoço, quando o pessoal se vai juntando com as pedras na mala do carro.
Dois caminhos, uma concha no chão
Quem percorre Canelas a pé tropeça, aqui e ali, em conchas de vieira pintadas no pavimento. A freguesia é atravessada por duas variantes do Caminho de Santiago — o Central Português e o Caminho da Costa —, o que a torna ponto de passagem obrigatório para peregrinos. A Igreja Matriz, reconstruída em 1778, com o seu retábulo barroco dourado e escurecido pelo tempo, oferece um momento de recolhimento antes de retomar a marcha. O Cruzeiro de Canelas, maneirista, datado de 1621, marca a encruzilhada onde os dois caminhos divergem — e onde, segundo dizem, convém parar e decidir com calma.
A chanfana de bode à moda de Canelas — cozida lentamente em tacho de barro, no forno de lenha, até a carne se desfazer ao toque do garfo — é a refeição que o corpo pede depois de quilómetros de trilho. Serve-se no restaurante O Moinho, se o António estiver de boa disposição, acompanha-se com papas de milho, couve e feijão-frade, e fecha-se com toucinho-do-céu caseiro e um cálice de licor de canela artesanal que arde suavemente na garganta. Se o António estiver fechado, experimente o Solar de Canelas — é mais moderno, mas a chanfana mantém-se fiel.
Ao final da tarde, no Rio da Granja, a luz rasante desenha sombras longas entre os amieiros das margens. Alguém desliza numa prancha de paddle-board, quase imóvel sobre a água escura. E no silêncio que se instala quando o vento pára, ouve-se — se se prestar atenção — o murmúrio da Ribeira Grande a correr sobre o Penedo do Índio, aquele som de água contra rocha que já existia quando as trilobites ainda caminhavam.