Artigo completo sobre Mafamude: o planalto sobre o Douro com dois caminhos
Conheça Mafamude, em Vila Nova de Gaia, onde um cruzeiro do século XVIII vigia o encontro de dois Caminhos de Santiago a 155 metros sobre o Douro.
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O sino de São Cristóvão bate às nove da manhã e o eco rola pelas ruas estreitas do núcleo antigo, ressalta no granito das fachadas de banda, perde-se entre as copas dos carvalhos que descem para o vale da Ribeira de Aldoar. A calcada, gasta por séculos de passadas, brilha com a humidade da noite anterior, e o ar traz consigo um frio húmido de planalto — estamos a cento e cinquenta e cinco metros de altitude, na margem sul do Douro, mas tão longe do rio que é preciso caminhar até ao Miradouro da Senhora da Saúde para o avistar em toda a sua largura, com o Porto estendido na outra margem como um quadro que se recusa a caber na moldura.
Mafamude é uma das freguesias mais densas de Vila Nova de Gaia — quase cinco mil pessoas por quilómetro quadrado comprimidas em pouco mais de quinhentos hectares — e, no entanto, conserva recantos onde o silêncio se instala como se a cidade tivesse decidido recuar. É nesse contraste que se descobre a sua identidade: um lugar que existe desde pelo menos 1248, cujo nome aparece no foral de D. Afonso III como "Mafamude", e que nunca deixou de se reinventar entre o comércio, o artesanato e a vida de bairro.
O cruzeiro que já foi pelourinho
Frente à Igreja Paroquial de São Cristóvão, ergue-se o Cruzeiro de Mafamude, um bloco de granito datado de 1741 e classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1977. A pedra, escurecida pelo tempo, conserva uma textura áspera ao toque, quase abrasiva, e durante séculos cumpriu uma função que ia além da devoção: era ali, junto ao cruzeiro, que se proclamavam os forais — um pelourinho simbólico onde a palavra falada ganhava peso de lei. Hoje, à sua sombra, velhos sentam-se em bancos de ferro e acompanham o vaivém dos peregrinos que passam com mochilas e conchas penduradas. Mafamude tem uma particularidade rara: em menos de seis quilómetros de perímetro, cruzam-se dois Caminhos de Santiago — o Central Português e o da Costa — e as setas amarelas e azuis sucedem-se nos muros como uma caligrafia de orientação que aponta sempre para norte.
A igreja, erguida no século XVI, guarda no interior um retábulo barroque financiado pelo Padre José Joaquim Pinto de Andrade, cónego da Sé do Porto e benemérito local, que em 1847 destinou 800$000 réis para a talha dourada que ainda hoje captura a luz das velas. Os painéis de azulejo setecentista nas paredes laterais narram cenas hagiográficas em tons de azul-cobalto sobre fundo branco, e o cheiro a cera derretida mistura-se com o frescor de pedra que nunca aquece por completo, mesmo em Julho.
Pelo vale abaixo, entre sobreiros e memória industrial
A poucos minutos a pé do adro da igreja, o terreno desce em direcção à Ribeira de Aldoar. O Parque Urbano da Ribeira de Aldoar abre-se como um corredor verde inesperado: três quilómetros de trilho pedonal paralelo ao leito de água, onde persistem bosques de carvalhos e sobreiros que filtram a luz numa peneira de sombras verdes. Ouve-se o murmúrio da corrente, o estalar de ramos secos sob as sapatilhas, o canto intermitente de aves ribeirinhas que nidificam nas margens. Ao longo do percurso, surgem vestígios dos antigos lagares de vinho e moinhos de água, estruturas de pedra cobertas de musgo que testemunham a época em que Mafamude vivia do tráfego fluvial e do trabalho braçal. Mais tarde, já em 1883, a freguesia industrializou-se: António da Silva Alves fundou a fábrica de conservas «Alves & Filhos», que chegou a empregar 350 mafamudenses e cujo legado permanece na memória colectiva do bairro.
Na Rua da Estação, entre os números 48 e 52, troços da plataforma da antiga estação ferroviária da linha do Porto à Póvoa, desactivada em 1930, ainda visíveis entre o asfalto e a vegetação rasteira. É um daqueles pormenores que só se encontra quando se caminha devagar, com os olhos rentes ao chão.
Sarrabulho, pão-de-ló e um bolo de trezentos quilos
A gastronomia de Mafamude bebe da tradição conjunta do Douro e do Minho. Aos domingos de festa, o cheiro a cabrito assado no forno de lenha escapa pelas portas entreabertas — no restaurante «O Moleiro» serve-se com batata a murro e um copo de Vinho Verde da sub-região do Sousa. O arroz de sarrabulho à moda de Mafamude, espesso e escuro, acompanha rojões com papas de sarrabulho, enquanto o caldo verde chega à mesa com lascas de toucinho fumado que se desfazem na colher. Para fechar, a pastelaria «Cristóvão» oferece o pão-de-ló de Mafamude — fofo, húmido no centro, aromatizado com raspas de limão — e as queijadas de São Cristóvão, de massa fina e recheio denso de requeijão.
Na primeira quinzena de Setembro, as Festas em honra de Nossa Senhora da Saúde tomam conta da freguesia: procissão desde a Capela da Senhora da Saúde (construção setecentista de frontaria simples), arraial com tasquinhas, concertos populares e fogo-de-artifício. É nessa altura que se confecciona o maior bolo de arroz do concelho — 320 quilos de massa distribuídos gratuitamente pela multidão na noite de 8 de Setembro, numa tradição que remonta a 1952. No final de Junho, as fogueiras de São Pedro iluminam as ruas e os manjericos passam de mão em mão. E no último domingo de Maio, a Romaria de São Gonçalo e São Cristóvão leva os fiéis a pé desde a igreja matriz até ao Santuário de São Gonçalo de Amarante, num percurso de 12 quilómetros pontuado por cantigas ao desafio que o Rancho da Madrugada e o Grupo de Concertinas de Mafamude mantêm vivos com acordeões e vozes sobrepostas.
Duas setas, uma mesma direcção
Quem percorre o troço do Caminho da Costa entre Mafamude e a Ponte D. Maria Pia — quatro quilómetros com passagem pelo Miradouro do Freixo — atravessa em meia manhã o resumo inteiro desta freguesia: o planalto urbano, o vale arborizado, a vista aberta sobre o estuário. A descida é suave, o ar aquece à medida que se perde altitude, e o Douro aparece primeiro como um reflexo entre telhados, depois como uma superfície larga e metálica sob a luz rasante.
Ao regressar, já de tarde, o adro de São Cristóvão está quieto. O cruzeiro granítico projecta uma sombra curta na calcada. Do vale sobe, quase imperceptível, o cheiro a terra molhada que a ribeira deixou nas margens — e é esse cheiro, vegetal e antigo, que se cola à roupa e à memória muito depois de se ter partido.