Artigo completo sobre Pedroso: pedra, fé e trilhos entre colinas de Gaia
Freguesia granítica onde capelas e muros contam a história de uma comunidade rural ao sul de Gaia
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O som chega antes da imagem. Um cão ladra ao longe, eco abafado por eucaliptos que ainda não perderam o medo do fogo de 2017. O ar da manhã traz aquele frio que só se encontra aqui, a mais de cem metros de altitude, quando a Ribeira de Aldoar ainda dorme enrolada nas brumas. Caminha-se por um trilho que é mais um raspanete de terra batida entre muros de pedra solta — as mesmas que o pessoal da terraplanagem arranca aos montes para irem empilhando — e percebe-se logo por que lhe chamaram Pedrosus: é pedra que nem fim. Está nas soleiras, nos cruzeiros que marcam onde duas veredas se encontram, nos chafarizes que ainda não foram trocados por torneiras modernas. Até no cemitério, os caixões desceram durante séculos a bater no granito que ninguém conseguiu furar mais que o suficiente.
Pedroso tem quase dois mil hectares, mas não é o tamanho que importa. É o facto de, num dia limpo, se ver o Douro a ser engolido pelo Atlântico e, ao mesmo tempo, o miolo de Gaia a alargar como nó de gravata apertado. Aqui vivem dez mil e tal pessoas — mais de metão com mais de cinquenta anos, dizem os censos, mas quem cá vê sabe que o que falta em nascimentos compensa-se em netos que voltam aos fins-de-semana para comer sopa da avó.
Pedra sobre pedra, fé sobre fé
A Igreja de São Pedro é o sítio onde se combina o encontro. Não tem grandezas: tem antes a porta lateral que dá para o adro onde se fuma o cigarro depois da missa das dez, e o degrau onde o padre já desceu a correr para impedir o Benfica-Porto no café de Aldoar. As capelas espalhadas são como postos de correio: Nossa Senhora da Saúde, que a malta da terrinha chama simplesmente "a Saúde", é onde se vai prometer quando o médico deu três meses e o remédio é rezar três terços. A arquitectura é a mesma pedra que faz as casas: granito cinzento, telha de canudo, nenhum tecto falso. Quem quer ouro vai para a Sé; quem quer fé fica aqui.
Há quem diga que os romanos já cá andavam, mas o que eu sei é que o meu bisavô já plantava batatas no mesmo sítio onde hoje planto eu. A freguesia oficializou-se no século XIX, mas isso são papéis: a aldeia já corria solta desde que alguém arranjou uma enxada e decidiu que a lama da ribeira dava para regar couves.
Dois caminhos, um só norte
Cá por casa, quando se vê mochilheiro a olhar para o chão, já se sabe: perdeu a seta. Passam os dois Santiago — o Central e o da Costa — como comboios que se cruzam na estação de Crestuma, mas sem carruagem. O peregrino aparece de manhã cedo, com aquela cara de quem dormiu no parque de campismo de Vila do Conde e só quer uma bica e a casa de banho da Junta. Ainda há dois anos havia uma máquina de venda automática de água na Alameda, mas roubaram os tubos. Agora é pedir à D. Rosa, que se estiver em casa abre a torneira do quintal e ainda oferece um figo se for época. Há quem lhe pegue, há quem não queira estragar o ritmo. O importante é que ninguém fica sem saber que à frente tem Crestuma, atrás tem Santa Marinha, e que o caminho é sempre em frente até Compostela ou até à vida, tanto faz.
O calendário que se come e se reja
As festas são o que sobra do ordenado. Em Junho há a do São Pedro, com os foguetes que o Zé Manel compra em Espanha porque "cá são todos maricas". Em Agosto é a da Saúde, procissão que desce a Rua da Igreja abaixo e faz o trânsito parar na EN507 — um engarrafamento de três carros e uma carrinha da GNR. A romaria de São Gonçalo e São Cristóvão é para quem gosta de andar: vai-se a pé até à capela, come-se sardinha assada no pão de Tabuão, bebe-se um branquinho e volta-se a cantar.
Na mesa, o que se come é o que a terra dá. Cabidela com vinagre de Loureiro, porque o de vinho tinto escurece demasiado. Cozido com farinheira de Mondim, que é mais gorda e fica bem no caldo. Rojões com couve-da-costa, a mesma que se vende no Mercado de Crestuma aos sábados. Quando aparece alguém de fora, serve-se logo caldo verde com chouriço de carne — o de sangue é só para os iniciados. Para adoçar, toucinho-do-céu da padaria Silva: não é o original de Ovar, mas é o que a D. Lurdes faz desde 1978 e ninguém se queixou.
Trilhos entre o campo e a cidade
Quem quer ver paisagem, apanhe a estrada municipal 1047 e estacione antes do cruzamento para a Gandra. Ali há um portão de ferro sempre aberto — é do Sr. António, que diz que "sempre aberto" serve para vacas e para pessoas. O trilho segue a ribeira, passa por um choupo que caiu na tempestade de 2013 e sobe até à Levada do Aldoar. Não tem grande altitude, mas tem o suficiente para se ver o tabuleiro da ponte em fundo e lembrar que, em trinta minutos, se está no Porto a beber um café no Piolho.
Voltando para baixo, há os cinco alojamentos que o Booking mostra — três são casas de família que os filhos emigraram e os pais alugam para pagar a renda da farmácia. Não há recepção 24 h: há a chave debaixo do tacho e um papel a dizer "a água quente demora um bocadinho". É o que se pode pedir a quem vive onde o GPS ainda se confunde com os muros de pedra.
O peso exacto da pedra
Ao fim da tarde, quando o sol se põe atrás do Monte da Virgem, as pedras ficam quentes como pão. É a hora de elas soltarem o cheiro a xisto que guardaram o dia todo. Algures, toca o sino da Igreja — três badaladas, que quer dizer missa de domingo amanhã — e o som vai abaixo como maré. Fica-se ali parado, com a mão no muro, a sentir o granito liso de tantas mãos que o tocaram antes. Não há monumento que explique Pedroso: há é o peso da pedra na sola do sapato, o frio que sobe pela canela e a certeza de que, quando se regressa, o muro continuará no mesmo sítio — só talvez com mais um lichen, que é como a pedra assina o ano em que vai completando.