Artigo completo sobre Perosinho: o sino, a malha e o granito de Pedro
Conheça Perosinho, Vila Nova de Gaia: história medieval, igreja barroca em gesso, tradições rurais e equilíbrio raro entre o Porto e os olivais centenários
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O sino da capela de Sameiro toca às oito da manhã e o som desce pela encosta, resvala pelos telhados de telha vã e perde-se algures entre os carvalhos-alvarinhos que ladeiam o Rio da Vila. Ninguém apressa o passo. Junto ao cruzeiro setecentista, dois homens medem distâncias no campo de terra batida onde se joga a malha — o disco de ferro embate na estaca com um estalo seco que ecoa na alameda. É assim que Perosinho acorda: sem alarido, com o ritmo de quem conhece cada pedra pelo nome.
O moço que emprestou o nome à terra
"Pero Sinho" — Pedro, o moço. É assim que os forais medievais registam este lugar, aludindo a um pequeno proprietário ou capelão que aqui teria terras. Da figura perdeu-se o rosto; ficou o topónimo, gravado na memória administrativa desde que a reforma liberal de 1836 agregou os lugarejos dispersos na vertente oriental do Monte Murim e criou a sede de freguesia. Durante séculos, a economia assentou em vinhas, cereais e olival — até a filoxera varrer as cepas e obrigar a reinvenção. O Padre José Joaquim Pinto de Sousa, pároco e cronista, deixou relatos dessa devastação que ainda se lêem como ferida aberta. A partir da década de 1950, a construção civil e as pequenas indústrias fizeram de Perosinho uma zona residencial de Gaia, mas sem lhe apagar o lastro rural. Hoje, com 6 872 habitantes distribuídos por 5,29 km², a freguesia mantém um equilíbrio raro: suficientemente perto do Porto para se chegar em 15 minutos de carro pela A20, suficientemente recuada para conservar olivais centenários e muros de xisto que nenhum betão cobriu.
Gesso talhado, azulejo e uma dívida ao Brasil
A Igreja Matriz de Perosinho, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1982, merece o tempo de quem sabe olhar para cima. A nave única abre-se num retábulo barroco talhado a gesso — não a madeira dourada, como seria de esperar, mas a gesso branco que capta a luz rasante das janelas laterais com uma suavidade quase têxtil. Nas paredes, painéis de azulejo setecentista contam histórias sacras em tons de azul-cobalto sobre fundo cru. Parte desta riqueza deve-se a António da Silva Ribeiro, emigrante que fez fortuna em Santos, no Brasil, e canalizou dinheiro para a restauração do templo. O mesmo impulso de "brasileiro de torna-viagem" ofereceu à freguesia, em 1892, o coreto de ferro fundido que ainda se ergue na alameda — estrutura delicada, com rendilhados metálicos que rangem ao vento de noroeste, testemunho de uma época em que a saudade se pagava em filigrana e ferro.
Mais acima, no lugar de Sameiro, a Capela de Nossa Senhora da Saúde guarda a devoção mais antiga da zona. Junto a ela, a Fonte da Saúde — um poço de água sulfurosa que durante gerações atraiu peregrinos vindos do Porto, cada qual com o seu cantil, convictos de que aquela água curava males do corpo e da alma. O cheiro a enxofre, ténue mas inconfundível, ainda paira nas manhãs húmidas.
O trilho dos quatro moinhos e o rio que os move
O Trilho dos Moinhos — PR 7 GAI — desenrola 5 km ao longo do Rio da Vila, afluente do Douro. O caminho serpenteia por terraços de xisto e granito onde a humidade alimenta fetos e musgos que cobrem as pedras de um verde quase negro. Quatro moinhos de água pontilham o percurso; um deles foi recuperado como Centro Interpretativo, e lá dentro ouve-se o ranger da mó sobre o milho — som grave, cadenciado, que faz vibrar o peito. O parque linear prolonga-se por 3 km de passeio ribeirinho propício à observação de aves aquáticas: garças, galeirões, mergulhões que rompem a superfície sem aviso. No extremo oposto, o miradouro do Pereirão, a 122 metros de altitude, abre uma panorâmica sobre o estuário do Douro — numa tarde limpa, a linha de água brilha como estanho derretido entre as margens verdes.
Fogueiras, sardinhas e a chanfana que demora horas
Perosinho vive o calendário litúrgico com fogo e fumo. Na noite de Sábado de Páscoa, Sameiro acende o Facho — uma fogueira de 12 metros que ilumina a encosta e cheira a carqueja e pinheiro resinoso. Em Maio, o terceiro domingo traz a procissão de Nossa Senhora da Saúde, com alvorada às 6h e bailarico que se estende pela madrugada. Mas é a noite de São Pedro, entre 28 e 29 de Junho, que concentra a energia mais visceral: a procissão desce até ao Rio da Vila, as fogueiras crepitam nas margens e o ar satura-se de gordura de sardinha a estalar na grelha, enquanto rusgas de bombos marcam o compasso com pancadas que se sentem no esterno. Em Julho, a Romaria de São Gonçalo e São Cristóvão leva os devotos a pé até ao Mosteiro da Serra do Pilar, numa peregrinação de 8 km que antecede o arraial de regresso — onde a chanfana de cabrito à moda de Perosinho espera em panelas de barro, lenta, escura de vinho tinto e colorau, servida com broa de milho de Sameiro ainda quente do forno de lenha. As papas de abóbora com feijoca e o toucinho-do-céu caseiro completam uma mesa que não pede sofisticação, pede apetite.
A última paragem antes do Douro
Quem percorre o Caminho Central Português de Santiago — ou o Caminho da Costa — passa obrigatoriamente por Perosinho. É o último abastecimento antes de se cruzar a ponte metálica sobre o Douro rumo a Valbom, e muitos peregrinos pernoitam numa das moradias ou apartamentos disponíveis em Sameiro, acordando com o toque dos sinos da capela. Vale a pena demorar-se: provar o vinho verde das quintas locais na Quinta do Espinhal, onde casas senhoriais de granito exibem brasões na fachada; visitar o atelier de cerâmica artesanal que reproduz os azulejos setecentistas da Matriz; pedalar pelo parque linear até ao cais fluvial de Canidelo.
A última imagem que fica de Perosinho não é um monumento nem uma paisagem — é o som do disco de malha a embater na estaca, seco e exacto, repetido vezes sem conta junto ao cruzeiro de granito, enquanto a luz da tarde alonga as sombras na terra batida e alguém, ao fundo da alameda, acende o primeiro braseiro da noite.