Artigo completo sobre São Pedro da Afurada: peixe na brasa e memórias do rio
Antiga comunidade piscatória junto ao Douro onde a tradição resiste entre lanchas e esplanadas
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O cheiro chega antes da imagem. Gordura de sardinha a estalar sobre brasas, fumo que se mistura com a brisa húmida do estuário e sobe em espirais lentas entre as mesas das esplanadas do cais. As lanchas de pesca balançam na água turva, amarradas a argolas de ferro enferrujadas, e o som que domina é o das gaivotas a disputarem restos de peixe com gatos que se movem entre as redes estendidas no chão. Estamos na margem sul do Douro, a menos de um quilómetro em linha recta da Ribeira do Porto, mas num mundo que respira a um ritmo completamente diferente.
São Pedro da Afurada ocupa menos de um quilómetro quadrado — 99 hectares onde vivem mais de dezassete mil pessoas, numa densidade que se sente nos estendais de roupa cruzados entre varandas, nas vozes que ricocheteiam pelas ruelas estreitas, no modo como os vizinhos se cumprimentam pelo nome. Esta é uma freguesia que só existe desde 1952, quando se separou de Santa Marinha, mas cuja história recua ao século XVI, ao tempo em que documentos da época da descoberta do Brasil mencionavam "a furada" como local de pesca junto a São Paio. Foram os primeiros pescadores — os Ferreirinhas, os Fanecas, os Fanelas, famílias cujos apelidos ainda se ouvem por aqui — que deram forma a esta comunidade.
Pedra, cal e santos que incomodam
A capela original, iniciada por Manuel Pinto Pinhal e concluída em 1894, ainda existe na Rua da Igreja, agora dedicada a Nossa Senhora da Saúde. É um edifício modesto, de uma só nave, onde as paredes encalhadas absorvem a humidade do rio e onde os bancos de madeira rangem sob o peso dos anos. Quem entra sente o fresco da pedra e o cheiro de cera derretida que se agarra à roupa. A nova igreja, inaugurada em 1955, tem uma escadaria que se perde no céu e campainhas que soam às sete da manhã, ao meio-dia e às sete da tarde, marcando o ritmo dos dias. Dentro, as imagens que Altino Maia esculpiu nos anos 60 — com olhos vazios e mãos desproporcionais — ainda fazem as senhoras da terceira idade persignarem-se depressa e murmurarem "santos modernos, coitados". No adro, a estátua de São Pedro com a chave dourada olha para o rio como quem guarda um segredo.
Mais acima, o Palácio de Fervença, construção setecentista em reabilitação, ergue-se com a promessa de uma segunda vida como habitação de luxo com vista sobre o Douro. A sua fachada de cantaria escurecida pelo tempo contrasta com o casario térreo dos pescadores junto ao cais — paredes caiadas, portas estreitas, azulejos gastos — que resiste como testemunho de uma arquitectura funcional, feita para quem vivia do rio e voltava a ele todos os dias.
O rio como altar
Na noite de São Pedro, a 29 de Junho, as ruas enchem-se de verbena. Os rapazes da terra desafiam-se ao fandango na Rua António da Cruz, os pés batendo no chão de forma que o chão inteiro treme. As velas das candeias derretem-se no passeio, formando poças de cera colorida que se agarram às solas dos sapatos. Na primeira quinzena de Agosto, a Romaria de São Gonçalo e São Cristóvão leva as imagens dos santos de barco pelo Douro até ao cais — a superfície da água reflecte as velas e as flores, e o silêncio dos que assistem da margem só é quebrado pelo motor das embarcações e por um ou outro cântico. Quando o cortejo volta para a igreja, os sinos repicam durante vinte minutos seguidos, uma avalanche de bronze que se ouve até à Marina.
Ainda hoje, antes da primeira viagem do ano, há pescadores que benzem as lanchas com ramos de louro e sal grosso. E existe um "Clube de Conveses" que reúne antigos marinheiros para contar histórias de pesca — narrativas que ninguém escreve mas que se acumulam como nós numa corda velha.
Caldeirada, broa e o forno que não se apagou
Na tasca da Dona Alda, a caldeirada de enguias serve-se em tachos de ferro negro que mantêm o calor até ao fim. O molho é vermelho intenso do pimentão, com cebola que derrete na boca e vinho branco que os pescadores trazem em garrafões de cinco litros. A broa de milho da padaria do Sr. Joaquim ainda leva farinha de castanha — o segredo está no forno a lenha que aquece desde 1962, onde o pão entra às cinco da manhã e sai com a crosta estaladiça e o miolo húmido que sabe a terra. No café Central, o cheiro do café torrado mistura-se com o do bacalhau à Brás que a Ana faz no fogão a gás antigo, mexendo com uma colher de pau que já perdeu o cabo.
Entre o estuário e o caminho
A praia da Afurada — pequena, de areia e seixo — revela-se na maré baixa como um segredo que a água esconde e devolve duas vezes por dia. Quando o mar sobe, cobre os muros de pedra onde as senhoras costumavam sentar-se a coser. No sapal, os curiosos podem ver garças ainda durante a maré cheia, mas é na maré vazia que se descobrem os canais de maré onde os miúdos apanham caranguejos com um pedaço de isco e um balde de plástico. O Jardim do Rio tem aqueles bancos de madeira que rangem quando nos sentamos, e onde os avós vêm ver os netos brincarem enquanto comentam o tempo que "não está como dantes".
A Afurada não se visita — atravessa-se, como se atravessa uma rede de pesca: fio a fio, nó a nó, com as mãos molhadas. E quando se parte, o que fica não é uma fotografia, mas o som exacto de uma lancha a bater na água ao atracar, o ranger da madeira contra o cais, e aquele cântico baixo — quase um murmúrio — que alguns pescadores ainda entoam ao desembarcar, como se o rio precisasse de ouvir uma voz humana para saber que alguém voltou.