Artigo completo sobre União das freguesias: história viva entre o Tejo e o castelo
São Vicente, São João e Alferrarede guardam séculos de memória no coração de Abrantes
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A luz da tarde bate de viés nas pedras do Castelo de Abrantes. Lá em baixo, o Tejo estica-se como uma fita larga e barrenta. O ar cheira a resina quente e, se o vento sopra de sudoeste, traz consigo um travo vegetal — o azeite novo, prensado nas imediações, que chegou à corte de D. João V. Estamos a 152 metros de altitude, num promontório que há quase novecentos anos decide o destino de quem controla o rio.
Pedra sobre pedra, cerco sobre cerco
D. Afonso Henriques tomou Abrantes aos mouros em 1148. D. Sancho I concedeu foral em 1179. Tornou-se sede de uma das maiores comendas da Ordem de Cristo, sob o comando de Álvaro Gonçalves de Ataíde, o Prior do Crato. As muralhas resistiram ao cerco castelhano de 1384 e voltaram a ser testadas em 1644. O nome — derivado do latim Aurantes — aponta para exploração aurífera antiga.
Caminhar pelo centro histórico é percorrer essa acumulação de camadas. As ruas medievais sobem e descem em declives abruptos, ladeadas por casas solarengas cujas fachadas exibem cantarias gastas. Na Praça Barão da Batalha, o Pelourinho do século XVI ergue-se como símbolo de autonomia municipal. Ao lado, palmeiras-da-terra introduzidas no século XIX dão à praça um perfil quase subtropical.
Portais manuelinos e azulejos de seiscentos
Seis monumentos classificados distribuem-se pela freguesia. A Igreja de São Vicente, do século XVI, exibe um portal manuelino e, no interior, um retábulo barroco. Guarda restos mortais de São Vicente Mártir. A Igreja de São João conserva azulejos seiscentistas. A Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, do século XV, funcionou como oratório de navegadores.
Do Convento de São Domingos, fundado no século XIII, restam ruínas que o mato vai reconquistando. Abrantes atraiu figuras como D. Diogo de Sousa, bispo de Évora e arcebispo de Braga, nascido na vila no século XV, ou o Padre António Vieira, que passou parte da infância aqui.
O rio, a levada e o pinhal do rei
O Tejo define Abrantes tanto quanto o Castelo. A Ponte de Abrantes, inaugurada em 1969, estende os seus 475 metros sobre a água. Do Cais de Abrantes partem cruzeiros fluviais que observam aves aquáticas e o Paul do Arrozal. A norte, a Serra de São Miguel oferece trilhos pedestres com panorâmicas sobre o vale. A Levada de Abrantes é um percurso pedestre de oito quilómetros que segue a água entre vegetação ripícola.
A Mata Nacional do Pinhal do Rei, plantada por D. Afonso III no século XIII, é um dos mais antigos pinhais do país. É habitat de aves raras. A Ponte de Alferrarede, sobre o rio Alviela, é ponto de passagem para observadores.
Bacalhau, azeite e o ritmo das feiras
Abrantes é conhecida como a "Terra do Bacalhau". A Festa do Bacalhau é em Outubro. A Festa do Azeite é em Novembro. No Mercado Municipal, as bancas alinham garrafões de azeite novo, queijos e enchidos. A região vinícola do Tejo completa o quadro, e a Quinta do Casal Branco oferece provas.
A Feira de São João, em Junho, remonta ao século XIII. As festas de São Vicente são em Setembro. A Romaria de Nossa Senhora da Boa Viagem é em Agosto.
Onde as palmeiras tocam as muralhas
Com mais de 16 mil habitantes, esta é uma freguesia densa — 250 habitantes por quilómetro quadrado. Há 37 alojamentos. A população é madura: quase 3800 residentes têm mais de 65 anos. Há uma lentidão orgânica nas manhãs de Abrantes que não é abandono, mas ritmo próprio.
Ao fim do dia, quando o sol desce atrás da Serra de São Miguel e o Tejo se tinge de cobre, o sino de São Vicente solta uma badalada que ressoa contra as muralhas do Castelo.