Artigo completo sobre Bemposta: pão, azeite e xisto sobre o Tejo
Aldeia ribatejinha entre olivais centenários, onde o forno acende antes da aurora
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O pão entra no forno de lenha às cinco da manhã. Ainda é escuro quando o fumo começa a subir, lento, pela chaminé de tijolo da casa comunitária, e o cheiro a massa e a erva-doce espalha-se pela aldeia. É véspera de São João em Bemposta, e as mãos que amassam a fogaceira são as mesmas que, há quarenta anos, aprenderam o gesto com as avós. A luz da madrugada rasga-se sobre o Tejo lá em baixo, um rio largo que corre devagar entre margens de areia branca. Ao longe, o cume da serra recorta-se contra o nascente. O silêncio só é quebrado pelo crepitar da lenha.
Bemposta fica num terraço de xisto que domina o vale — bene positam, bem situada, diziam os que aqui se fixaram há séculos. A aldeia cresce em torno da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação, um templo setecentista de nave única onde a talha dourada brilha à luz das velas. No adro, um cruzeiro de pedra guarda uma inscrição latina quase apagada pelo tempo: "Bemposta, porta do Alentejo". A frase não é metáfora. Durante a Idade Média, este foi território de passagem entre o Tejo e as planícies do sul, rota de pastores transumantes e de carregamentos de azeite que seguiam rio abaixo em barcaças de fundo chato.
O peso do azeite
Nos olivais que cercam a aldeia, alguns troncos têm mais de três séculos. As raízes agarram-se ao xisto como dedos retorcidos, e no Outono os ramos vergam sob o peso da azeitona. Entre Novembro e Janeiro, o lagar cooperativo volta a funcionar. O azeite sai quente da prensa, verde-escuro, espesso, e é servido sobre fatias de pão de bola ainda tépido. Tem um travo amargo, quase picante, que fica na garganta. É Azeite do Ribatejo DOP, certificado, mas aqui ninguém usa essa linguagem. Chamam-lhe "o nosso azeite", como se fosse pessoa da família.
A estrada que atravessa Bemposta é a Nacional 2, o troço original ainda calcetado em blocos de xisto irregular. Os marcos quilométricos de 1945, em granito com o brasão de Abrantes, estão cobertos de musgo. Há um registo oral de que, durante a Grande Guerra, famílias daqui enviaram garrafões de barro com azeite para os combatentes portugueses em França. Partiam de comboio a partir de Abrantes, embrulhados em palha e pano cru. Ninguém sabe se chegaram inteiros.
Água que cai e água que fica
O ribeiro de Bemposta nasce na serra e desce em socalcos de pedra seca — três açudes medievais que ainda seguram a água para rega. O trilho pedestre que os liga é estreito, ladeado por sobreiros e azinheiras onde o sol mal entra. A meio do percurso, a água despenca doze metros sobre rocha negra: é a cascata da Faia da Água Alta, redescoberta em 2004 por geocachers que seguiam coordenadas GPS. A queda forma uma piscina natural onde a temperatura nunca sobe dos quinze graus, mesmo em Agosto. O pessoal da vila vai lá ao fim-de-semana, mas os miúdos é que descobriram primeiro. Dizem que é gelada como a cerveja que o pai esqueceu no frigorífico durante a festa.
Mais abaixo, o ribeiro encontra o Tejo na Praia do Alamal, uma extensão de areia fina onde se alugam kayaks. A descida de quatro quilómetros até ao confluente é tranquila, pontuada por gaivotas e corvos-marinhos que pescam em mergulho raso. Nas margens, o paul de Bemposta — uma pequena zona húmida de juncos e caniços — abriga cágados-mediterrânicos que se arrastam para a pedra ao primeiro raio de sol.
Mascarados e chocalhos
No domingo gordo de Entrudo, a aldeia acorda com estrondo. São os mascarados da Chocalhada, cobertos de peles de cabra e chocalhos de madeira que batem contra as ancas a cada passo. A tradição mantém-se desde o século XIX, e o cortejo percorre as ruas em círculos concêntricos, parando à porta de cada casa para receber vinho e broa. Na primeira sábado de cada mês, a feira mensal traz gado, artesanato em cortiça e garrafões de vinho de talha — Fernão Pires e Trincadeira fermentados em barro, quinze dias de pisa manual, sabor terroso que gruda ao palato. Quem vem de fora pensa que é vinho do ano passado. Não é. É do anterior, mas o Zé do talho garante que "está no ponto".
À noite, no cume da serra de Bemposta, o céu abre-se sem poluição luminosa. O Agrupamento de Astronomia de Abrantes monta um telescópio de 200 mm aos sábados de Verão. Júpiter aparece como um disco esbranquiçado com quatro pontos de luz à volta — as luas galileanas, visíveis a olho nu através da lente. A densidade populacional aqui é a mais baixa do concelho — 7,8 habitantes por quilómetro quadrado — e sente-se. O silêncio da serra é denso, quase físico, só cortado pelo uivo distante de um cão ou pelo estalar de um ramo seco sob o casco de um javali.
Quando a fogaceira sai do forno, ainda fumegante, as mulheres partem-na em fatias irregulares e distribuem-na à porta da igreja. O pão é doce, fofo por dentro, com a crosta estaladiça que só a lenha dá. Fica nas mãos o cheiro a erva-doce e a cinza quente.