Artigo completo sobre Mouriscas: onde o azeite conta a história do Tejo
Freguesia de Abrantes vive ao ritmo das oliveiras e da memória moura junto ao rio
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O azeite escorre em fio dourado sobre o prato de barro, espesso e aromático, com o travo levemente amargo das azeitonas ‘Galega’ colhidas em Novembro. Na mesa de madeira gasta pelo uso, o pão caseiro absorve o líquido denso enquanto, pela janela aberta, entra o ar que sobe do Tejo, aqui ainda estuário e não rio. A 189 metros de altitude, as oliveiras desenham linhas ordenadas na paisagem suave, pontuadas pelo verde mais escuro dos pomares de citrinos e pelo castanho da terra de xisto e areia. Mouriscas respira ao ritmo da agricultura — um ritmo lento, medido pelas estações, onde os gestos se repetem desde o foral de 1285.
Memória moura no vale
O nome da freguesia guarda a memória de quem aqui ficou depois da conquista de Abrantes (1148). Mouriscas — derivado de “mouros” ou, mais provavelmente, da aldeia de mouriscos cristianizados que se manteve no vale — aponta para uma presença islâmica que deixou marcas no território: a própria divisão da herdade em ‘faixas’ de cultivo segue o modelo de ‘arteigado’ mourisco. A integração no ordenamento português trouxe novos donos às terras — a Ordem de Santiago, os priores de São Vicente de Lisboa, a Casa de Abrantes — mas a vocação agrícola manteve-se intacta. A fertilidade do vale e a proximidade do rio garantiram séculos de cultivo contínuo: trigo e centeio até às reformas de Duarte Pacheco (1930-1940), vinha até à filoxera (final do séc. XIX), e sobretudo a oliveira, que encontrou aqui o solo xistoso e o clima térmico ideal para prosperar.
A Igreja de São João Baptista ergue-se no centro da aldeia com a sobriedade característica dos templos rurais. De origem medieval (documentada desde 1320), o edifício sofreu sucessivas remodelações que lhe conferiram o aspecto predominantemente barroco actual — a talha dourada do altar-mor é de 1723, paga pela Irmandade dos Estivadores do Tejo. Persistem, porém, elementos manuelinos: o arco triunfal de grinaldas e o tímpano da porta lateral, ambos em pedra de Alvega. As paredes caiadas reflectem a luz intensa do Verão, e o interior recolhido convida ao silêncio. Mais discreta, a Capela de São Sebastião permanece nas imediações, construída em 1576 para cumprir promessa feita durante a peste bubónica; ainda hoje se celebra missa lá a 20 de Janeiro, dia do santo.
Festa no solstício
No dia 24 de Junho, quando o sol atinge o seu ponto mais alto no céu, Mouriscas celebra São João Baptista com missa, procissão e arraial. As ruas enchem-se de vozes, música e cheiro a sardinha assada — um dos raros momentos em que a densidade populacional baixa, de apenas 42 habitantes por quilómetro quadrado, parece contradizer os números. O convívio prolonga-se pela noite, enquanto os mais velhos recordam tempos em que a festa durava três dias e as famílias vinham das quintas mais afastadas — Vale do Grou, Vale do Corvo, Barroca — de carroça. Outras celebrações pontuam o calendário — o Natal, a Páscoa, a bênção dos campos na sementeira (primeiro domingo de Março) —, mas sem romarias de grande escala. Aqui, a fé manifesta-se na intimidade das capelas rurais — Nossa Senhora da Piedade, no Vale do Grou (1684), e São Pedro, na Barroca (1732) — e no ciclo agrícola que dita o compasso da vida.
Sabor a terra
O ensopado de borrego ferve em lume brando, com o aroma do alho e da erva-doce a invadir a cozinha. Na mesa ribatejana de Mouriscas, o cozido à portuguesa divide honras com o arroz de tomate e a sopa de baldroegas, esta última preparada com as folhas carnudas colhidas nos campos de searas. Os doces — pão de ló de Tita Guida, trouxas de ovos da Dona Amélia, bolachas de canela da padaria da Mourisca — surgem em dias de festa, acompanhados pelo vinho da região do Tejo, branco de ‘Fernão Pires’ ou tinto de ‘Trincadeira’, conforme a estação. Mas é o azeite que rouba a cena: DOP Azeites do Ribatejo, prensado nas lagares de rodizio ainda em funcionamento em Vale do Grou e Vale do Corvo, de acidez ≤ 0,3 % e sabor frutado. Nas quintas, ainda se encontra quem produza o seu próprio, guardado em talhas de barro de 200 litros que mantêm as propriedades intactas.
Trilhos junto ao rio
Os caminhos rurais — antigos ‘corredores’ de acesso às barcas do Tejo — serpenteiam entre olivais centenários e pomares de citrinos, descendo suavemente em direcção ao rio. A topografia generosa permite caminhadas sem grande dificuldade, onde o único esforço é abrandar o passo para observar as aves aquáticas que frequentam as margens — garças-reais, patos-reais, corvos-marinhos que mergulham em busca de peixe-gato e achigã. Não há áreas protegidas classificadas, mas o valor ecológico persiste na paisagem agrícola tradicional, onde ainda se praticam técnicas ancestrais de cultivo — sega à mão, debulha em eira, vindima em ‘lagaradas’ comunitárias. O microclima influenciado pelo rio suaviza os extremos: -2 °C no Inverno, 38 °C no Verão, tornando os Invernos menos rigorosos e os Verões mais suportáveis.
Ao fim da tarde, quando a luz rasante dá aos olivais um tom prateado, o silêncio de Mouriscas é interrompido apenas pelo vento nas folhas e pelo sino distante da igreja. O azeite novo, provado à colher directamente do lagar, deixa na língua o travo acre e pungente da terra — sabor que permanece muito depois de se ter partido.