Artigo completo sobre Pego: onde o azeite e o vinho moldam o Ribatejo
Freguesia de Abrantes vive ao ritmo dos olivais, vinhas e do vale do Tejo que a abraça
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A estrada estreita sobe e desce entre muros de pedra seca que guardam segredos de quem já não cá está. Do lado esquerdo, um olival velho que o Zé Maria diz ter pertencido ao avô - as oliveiras ainda carregam as marcas das podas de inverno feitas à mão, com o serrote que ele guarda na adega "só para memória". Pego aparece quando menos se espera, entre uma curva e outra - as casas não se mostram de todo, escondem-se atrás de portões de madeira escura que rangem sempre do mesmo lado.
O azeite que não é só azeite
É no lagar do Sr. António, aberto desde 1953, que o cheiro azeitona verdadeiramente se sente. Quando chega outubro, as mulheres da aldeia juntam-se à porta com os cestos de vime que ainda não substituíram por caixas de plástico. "É para não estragar o sabor", diz a D. Lurdes, que traz as azeitonas do pombais - um sítio que só quem é de Pego sabe onde fica. O azeite aqui não tem nome bonito, chama-se "o nosso" e é isso que se pede na mercearia: "traga-me três litros do nosso".
As vinhas que sobrevivem
Nas encostas a sul, onde o sol queima mesmo em março, as vinhas do Torrado ainda produzem uvas que ninguém regista em documentos. O vinho faz-se nas caves escavadas na rocha, onde a constante dos 17 graus guarda segredos de três gerações. A casta Trincadeira que o Sr. Joaquim plantou em 1978 ainda dá uvas - "mas agora só para a família, que os jovens não querem saber disto". A adega cheira a madeira queimada e a mosto antigo, misturado com o fumo do cigarro que ele fina entre os dedos.
O que os números não dizem
Sim, há 779 pessoas com mais de 65 anos. Mas o que o censo não regista é a forma como a D. Alice, com os seus 82, ainda vai à horta às seis da manhã, ou como o Sr. Manuel, mesmo com a catarata a atrapalhar, continua a afinar o motor da motosserra "só para garantir que funciona quando for preciso". Os 195 jovens até aos 14 anos conhecem-se todos pelo nome - e sabem que têm de sair para encontrar trabalho, mas também sabem que cá sempre há um prato na mesa quando regressam.
O tremoço do fim de tarde
Às cinco e meia, o café do Zé está cheio. Não de gente - de silêncio. Os homens bebem o bica deitado para trás na cadeira, as mulheres só entram para comprar o pão que ainda vem do forno de Tramagal. O tremoço servido num prato de loiça antiga é o acompanhamento obrigatório, salgado que nem o Tejo em agosto. Ninguém fala muito - não há necessidade. As notícias do dia já foram trocadas na porta da igreja, antes da missa das sete.
O pão que se faz à sexta
É só à sexta-feira que o forno no Largo da Igreja acende. A D. Rosa acorda às quatro para atizar o fogo com lenha de azinheira - "dá mais calor, mas demora mais tempo". O pão fica pronto às nove, com aquela côdea grossa que os netos chamam "casaco de inverno". Quem vai buscar pão leva também uma trouxa de broa - feita com o milho que o vizinho moía na Quinta do Côvo, onde ainda há moinho de água que funciona quando chove o suficiente.
Quando o Tejo se vê
Não é preciso subir a nenhum miradouro. Basta ir até ao cimo da rua do Castelo - onde não há castelo nenhum, só o muro da antiga escola primária onde o Sr. Domingos aprendeu a escrever. Dali, o Tejo aparece como um fio de prata que se perde entre as chamuscas de julho. As barcas já não passam há anos, mas ele jura que às vezes ainda ouve o apito do vapor que levava as laranjas para Lisboa. "É memória que me faz barulho", diz, enquanto acende outro cigarro deitado para trás, na cadeira de baloiço que o filho lhe trouxe da cidade - mas que ele só usa para ver o rio.