Artigo completo sobre São Facundo e Vale das Mós: olivais e xisto no interior
Mais de 10 mil hectares entre Abrantes e o silêncio: terra de azeite DOP e vinhas do Tejo
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O xisto escuro aflora nas encostas e a luz da tarreirinha de Abrantes desenha sombras compridas sobre os olivais que descem até ao vale. Aqui, entre São Facundo e Vale das Mós, a paisagem organiza-se em patamares de pedra — terra lavrada, mato denso, céu largo. O silêncio tem peso, interrompido pelo vento que varre os caminhos de terra batida e pelo ladrar distante do cão do Sr. Joaquim.
A medida do território
Caminhar por aqui é perceber distâncias reais. A elevação média ronda os cento e oitenta metros, mas o relevo ondula sem piedade — sobe-se o "lombo" de Vale das Mós, desce-se para o Carrascal, volta-se a subir até à Portela. Os olivais dominam a paisagem — não é por acaso que o azeite de cá tem DOP. O chão é pobre, o sol queima no verão, e a azeitona só se colhe em Dezembro, quando o fruto já tem três pingos de água por dentro. Nas quintas da Figueira e do Alviobeira, a apanha ainda se faz à mão: varas de sobreiro, redes no chão, crianças de férias a ajudar os avós.
O vinho do Tejo chegou mais tarde. As vinhas do Sr. Albano, no Cabeço da Mãe, nascem em solo de xisto — "terra que faz dor de dentes", diz ele — e dão uvas que sabem a pedra moída. São poucas parras, mas cada cacho carrega o sabor destas ravinas onde até o ar parece mais fino.
Viver no limite do equilíbrio
Cento e três jovens para quatrocentos e oitenta e quatro idosos. A escola de Vale das Mós fechou há três anos — as crianças vão agora para Abrantes de autocarro às sete da manhã. O café do Zé Manel, na esquina da Igreja, abre às seis e meia para servir o "bica" aos campones. São duas as casas de alojamento local: uma no Carvalhal, outra no Lamegal. Quem fica pernoita acorda com o canto do galo do Sr. Aníbal e o cheiro do pão que a D. Rosa ainda vai buscar ao forno do Carrascal aos sábados.
A estrada nacional 118 corta a freguesia, mas é estreita — quando encontram um tractores, é um de nós que tem de dar ré até ao primeiro desvio. O autocarro escolar demora vinte minutos a chegar a Abrantes, mas no Inverno, quando o Tejo transborda, pode levar uma hora. "É o preço da paz", dizem os mais velhos.
O que resiste
Não há monumentos. Há é o cruzeiro de pedra do século XVI, encostado à cancela do cemitério de São Facundo, onde as mães deixam flores aos domingos. A festa da padroeira é em 28 de Agosto — há arraial na escola primária vazia, serve-se sardinha assada com pão de milho, e o Rancho Folclórico da aldeia dança até às duas da manhã. O forno comunitário do Carrascal acende-se cinco vezes por ano: no dia de S. Martinho, na semana da Páscoa, e quando alguém faz anos e quer levar bolo de laranja aos vizinhos.
O fumeiro do Sr. João fica numa cave escura, cheira a terra e a louro. A morcela leva sangue de porco, cebola do seu quintal e pimentão da Horta da D. Odete. É preta como o xisto das encostas, e quando frita na frigideira de ferro, a gordura fica dourada como o sol de Agosto.
A tarde cai sobre os olivais e o vento acalma. Fica o cheiro a lenha que o Sr. Joaquim atira para a lareira, o fumo branco que sobe direito no ar parado, e a certeza de que amanhã será igual — até que a D. Rosa já não consiga ir ao forno, até que o último olival seja vendido a um alemão que nunca pisou estes caminhos.