Artigo completo sobre São Miguel do Rio Torto: onde o Tejo ditou a história
Porto medieval, fortim oitocentista e memórias fluviais na margem esquerda do Tejo
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O Tejo corre largo e manso por aqui, como quem tem pressa de chegar a Lisboa mas ainda assim vai deixando a vida descansar nas margens. O Rossio ao Sul do Tejo é isso mesmo: um lugar que só existe porque o rio decidiu ser de molde. Dizem que antigamente era Porto do Tejo, depois Rocio das Barcas, e até Rossio de Abrantes — mudavam-lhe o nome como quem muda de camisola, mas o rio ficava. Vinha trigo da Beira, vinha azeite do Alentejo, e os homens desciam as encostas com os burros a farejar a serra, tudo para encher as barcas que rumavam a Lisboa. Hoje já ninguém se lembra do cheiro a peixe salgado e a cordagem, mas se prestar atenção ao vento ainda se ouve o ranger das tabuas antigas.
Quando o Porto Vivia do Rio
A junção de São Miguel do Rio Torto com o Rossio só veio a papel em 2013, mas as aldeias andam por aqui desde que o Diabo era menino. Em São Miguel contam que lá para os lados do Moinho do Meio houve uma cidade moura chamada Ulmeiro — coisa de lenda, claro, mas quem é de lá garante que às vezes as máquinas de cortar azeite parecem gemer em árabe. A capela de São Miguel é outra história: quinhentista, com a Trindade esculpida como quem esculpe pão para a missa, e o arcano São Miguel a brandir a espada como quem afasta o mau-lhado. Entre as paredes de cal, o silêncio é tão grosso que até os turistas abaixam a voz — respeito é respeito.
O Fortim que Vigiava o Vale
Suba-se à Serra de S. Miguel e lá está ele, o Fortim do Caneiro, a 134 metros de altura, de pedra no meio do nada. Fizeram-no no século XIX para defender Abrantes de um ataque que nunca chegou — os ingleses, os franceses, enfim, toda a gente passou por cá mas ninguém se deu ao trabalho de atirar uma bala sequer. Hoje é um miradouro com vista para o Tejo e para as vinhas que parecen tapetes verdes estendidos ao sol. Tiraram-lhe os canhões, deram-lhe um placard da Direção-Geral do Património e pronto: serve para tirar fotos e para os miúdos fazerem piqueniques em cima das trincheiras. História é assim mesmo — hoje guerra, amanhã Instagram.
Azeite, Vinha e Território
Olival é o que não falta. Cada curva da estrada é um novo lagar, cada porta tem um saco de azeitonas à espera. O azeite do Ribatejo tem DOP, que é como quem diz que pode andar de burrel na etiqueta. Prove-se num pão de testa ainda quente: tem aquele amargor que faz cócegas na garganta e depois deixa um doçedo que até o dentista aprova. As vinhas são outra conversa: tem uvas que só nascem aqui, com nomes que parecem prato do dia — Fernão Pires, Trincadeira, Castelão. O clima é o mesmo de sempre: verões que queimam, invernos que molham, e o Tejo a regular a coisa toda como um termóstato de quatro mil anos.
O Quotidiano Ribeirinho
São quatro mil e tal habitantes espalhados por aldeias que cabiam numa estrada de saco. A densidade é de 70 por quilómetro quadrado, o que quer dizer que há espaço para todos e para os cães de cada um. A pouco tempo puseram uma caixa Multibanco no Rossio — 6 500 euros da junta — porque o banco fechou e os velhos não querem ir a Abrantes só para levantar 20 euros. É o género de coisa que se discute no café: se dá para pagar a luz sem ir à vila, se o pão sobe mais um cêntimo, se o médico vem na terça ou na quarta. Há 1 446 idosos e 382 putos: quem fica é quem gosta, quem vai é quem pode. À noite, quando o sol se deita e o Tejo vira espelho de tangerina, o silêncio é tão grande que até se ouve a barriga a pedir jantar. E pronto, é isto. Venha cá, leve os sapatos confortáveis, traga fome e vá ao lagar provar azeite com pão caseiro. Depois diga-me se não souber a história.