Artigo completo sobre Bugalhos: onde o lagar centenário ainda prensa azeitona
Freguesia oleícola de Alcanena mantém tradição viva desde 1901 com azeite DOP e pêra-rocha
Ocultar artigo Ler artigo completo
O ranger da prensa de madeira contra a azeitona ainda ecoa no Lagar de Varas de Bugalhos desde 1901. É um som grave, húmido, que se mistura ao cheiro intenso do azeite verde a escorrer para as tulhas de granito. Aqui, no sopé calcário da Serra de Aire e Candeeiros, a 111 metros de altitude, o ritmo anual ancora-se na oliveira — árvore que moldou a toponímia, o calendário e até a memória colectiva desta freguesia de 963 habitantes. Bugalhos deriva do diminutivo antigo para pequenos montes cobertos de olivais, uma geografia que ainda hoje se lê nos 1645 hectares de colinas suaves onde o verde-prateado das copas alterna com o branco da cal das casas.
O azeite como biografia
Os cadastros de 1758 distinguiam "Bugalhos de Baixo" de "Bugalhos de Cima", povoação entretanto desaparecida. Ficou a primeira, e com ela a vocação oleícola que fez desta uma das maiores produtoras de Azeites do Ribatejo DOP no concelho de Alcanena. Os lagares centenários não são peças de museu: continuam activos, com varas de madeira a prensar a pasta numa dança lenta que dura horas. Na Quinta do Conde, a dois quilómetros do centro, o azeite artesanal vende-se directamente ao visitante, acompanhado de compotas de pêra-rocha — o outro produto DOP que aqui floresce, sobretudo nos pomares que ladeiam as ribeiras sazonais.
Novembro, mês de regresso
A apanha da azeitona em Novembro transforma Bugalhos. Emigrantes regressam, vizinhos colaboram sob as árvores, e o "Olive Harvest Day" abre o lagar ao público com música tradicional e degustações. É raro encontrar uma freguesia ribatejana sem festa padroeira declarada, mas Bugalhos substituiu o calendário religioso pelo agrícola: a colheita funciona como romaria laica, momento em que a população quase duplica e os cafés enchem ao pequeno-almoço. No café "O Lagar", as torradas com azeite novo — ainda turvo, picante — são servidas sobre papel pardo enquanto o vapor sobe das chávenas de café. O estabelecimento fica na rua da Igreja, abre às 7h desde 1983, e é o único que serve pequeno-almoço contínuo durante a colheita.
Entre o cruzeiro e os olivais
A igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, guarda um cruzeiro manuelino deslocado, trazido da ermida de São Sebastião que existiu no Cabeço do Facho até aos anos 40. As volutas de pedra, gastas pelo tempo, contrastam com a cal branca da fachada reconstruída após o terramoto de 1909. Dali parte o Trilho dos Olivais, cinco quilómetros circulares que atravessam pomares de pêra-rocha e sobem até ao miradouro do Cruzeiro. O caminho é de terra batida, ladeado por muros de pedra solta onde crescem carrasqueiras e esteva. No silêncio da tarde, ouve-se o canto distante de perdizes e o farfalhar do vento nos ramos. A Serra de Aire ergue-se a dez quilómetros, massa cinzenta no horizonte, mas aqui o relevo é dócil, desenhado para a agricultura de sequeiro.
À mesa, o Ribatejo concentrado
No restaurante "A Cabana", o ensopado de borrego chega à mesa numa panela de barro ainda a ferver. As migas com torresmos são densas, untuosas, temperadas com alho e coentros. O cabrito assado no forno de lenha — tradição que resiste nas casas mais antigas — surge aos domingos, pele estaladiça sobre carne macia. Nos dias de festa, aparecem os doces conventuais: pastéis de feijão de Torres Vedras, trouxas de ovos, barrigas de freira, acompanhados de vinhos brancos leves produzidos nas redondezas. Não há sofisticação, mas há memória gustativa: cada prato repete gestos de gerações.
O peso do silêncio
Ao final da tarde, quando o sol rasante incendeia os olivais e a luz dourada se agarra às folhas, Bugalhos revela a sua densidade. Não é o silêncio vazio do abandono — a densidade populacional de 58 habitantes por quilómetro quadrado garante isso —, mas o silêncio cheio de quem sabe esperar. Esperar que a azeitona amadureça, que a pêra-rocha ganhe cor, que o azeite decante nas tulhas. No miradouro do Cruzeiro, o vento traz o cheiro a terra lavrada e, ao longe, o tinir metálico de uma grade a lavrar. É um som que não promete espectáculo, apenas continuidade.