Artigo completo sobre Monsanto: onde o olival dita o ritmo da vida
Freguesia de Alcanena vive ao compasso da azeitona DOP e da Pêra Rocha em socalcos do Ribatejo
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A aldeia acorda antes do sol quando o galo do Sr. Joaquim decide que já é hora. Às sete, o café do Zé está aberto — é ali que se sabe quem está doente, quem casou e quanto pagaram pela azeitona este ano. Monsanto não tem grandes vistas nem igrejas monumentais; tem é 700 pessoas que conhecem o nome uns dos outros e um café onde o empregado já põe o copo de bagaço na mesa antes de pedires.
Caminha-se por aqui sem pressa. As estradas de terra sobem e descem entre muros de pedra seca que o tempo foi carcomendo. Olha bem: vês umas pedras mais brancas? É onde o gado as foi polindo ao esfregar-se. No fim da rua principal — que tem o comprimento de um tiro de posta — fica a mercearia que a D. Lurdes mantém aberta desde 1978. Vende de tudo: desde pregos a pão de forma, passando por remédios caseiros e os bombons que ninguém come há vinte anos mas ela se recusa a deitar fora.
O que se come (e se bebe)
A comida não vem de revistas. Vem do quintal, da horta e do porco que se mata em Janeiro. No Inverno, é a sopa de couves com chouriço que o sogrinho curou na chaminé. No Verão, são os tomates maduros com azeite quente e pão que estala. A D. Alda faz um arroz de cabidela que mete medo às crianças — fica preto, tem sangue do frango — mas que depois de provares pedes segunda dose. O vinho é daqui, feito nas caves onde o cheiro a uva passada nunca mais sai do ar.
Azeitona e pêra é que pagam as contas
De Outubro a Dezembro, a aldeia inteira cheira a azeitona esmagada. Vão-se os lagares antigos, mas o azeite continua a ser o ouro líquido que paga as propinas dos miúdos. A Pêra Rocha cresce nas terras mais baixas — aquelas que ficam perto da ribeira onde os putos aprenderam a nadar (apesar das mães dizerem que não). Um produtor dizia-me outro dia: "A pera é como a mulher: tem de ser firme, mas não dura". Não sei se é politicamente correto, mas é verdade.
Quem fica, quem vai
Os jovens vão-se embora, é facto. Mas os que ficam compraram tractores novos e smartphones com apps que dizem quando regar. Ainda há 233 velhos acima dos 65 — são eles que guardam as histórias de quando aqui havia cinco cafés e duas tabernas. Agora há Wi-Fi na praça, mas o médico só vem duas vezes por semana. Temos dois sítios onde dormir: um apartamento novo que o Nuno (que foi para França e voltou) recuperou na casa dos avós, e um quarto na quinta do Sr. Alfredo onde o gato dorme na cama se gostar de ti.
Vir para cá
Não venhas procurar animação. Aqui o programa é este: levantas tarde, vais ao café tomar um galão que a D. Fátima faz com leite da quinta ao lado, comes um pastel de nata que ainda está quente, e depois decides se vais apanhar cogumelos ou se ficas a conversar sobre futebol. À tarde, há sempre alguém que precisa de ajuda a carregar uma carga de lenha — aceita, que ao fim do dia levas para casa um cabaz com ovos caseiros e um ramo de salsa.
O sol põe-se atrás do monte do Magrinho. Quando a luz fica dourada, é hora de regressar. O cão do Zé acompanha-te até ao carro, não porque te queira roubar, mas porque espera que lhe guardes o lugar no banco do pendura para a próxima vez. Porque há-de haver próxima vez. Monsanto não te agarra com monumentos — agarra-te com o cheiro do pão que a vizinha trouxe quente, com o "até amanhã" que o Sr. António diz como se te conhecesse desde sempre, com a descoberta de que afinal o tempo pode andar devagar e não perdes nada com isso.