Artigo completo sobre Valada: onde o Tejo desenha aldeias sobre estacas
Palafitas avieiras, ponte de Eiffel e campos férteis junto ao rio que comanda a vida na planície
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sol bate ao lado, como quando se deixa a cerveja em cima da mesa e a luz entra de esguelha pelo copo. Valada é isto: uma freguesia que cabia numa conversa de café, mas que o Tejo decidiu abraçar até aos 42 km². São 683 almas, contadas de cor — porque aqui toda a gente se conhece pelo nome ou pela cara do avô.
Onde o rio ainda manda mais que a Câmara
Dizem que os romanos já passavam por Muge a trocar vinho por peixe. A Igreja Matriz, com aquele ar de quem viu tropelias de reis e outros males, foi-se arranjando ao longo dos séculos como quem remenda umas calças — nunca perdeu o fundo, mas mudou de corte. O dique é o verdadeiro presidente: quando o Tejo enche, é ele que decide se a horta fica ou se vai à vida. Agora serve também para turista fazer exercício e perguntar se aquilo é mesmo o mar.
As palafitas que sobreviveram ao tempo e ao progresso
A Palhota é das últimas que restam. As casas sobre estacas lembram-me as que a minha avó tinha no quintal para as galinhas — só que maiores e com gente dentro. Ainda há quem viva ali, apesar da humidade lhes fazer as pernas doerem como a quem jogava à bola no campo ao lado. Ao fim do dia, o cheiro à lenha a queimar mistura-se com o pão torrado e o rio parado nos canais. É estranho, mas é casa.
O que se come (e bebe) sem pagar frete
A enguia frita não é opção — é obrigação. Vai com arroz de tomate que sabe à terra onde foi plantado, sem etiquetas nem histórias. O pastel de Porto de Muge é um pastel de nata que foi à praia e decidiu crescer: massa folhada grossa, creme que escorre, açúcar que se agarra ao bigode. Acompanha com um café tirado na máquina antiga do "Santinho" e fica logo tudo certo. O vinho da região não precisa de notas de prova: é branco para o peixe, tinto para a conversa, e os copos vão-se enchendo até alguém lembrar que amanhã há mercado.
Onde se anda sem pressa
O caminho do dique é o percurso mais honesto que há: 15 km de rio à esquerda, horta à direita, e nenhum engano possível. Dá para ir de bicicleta, mas atenção aos buracos — são os mesmos desde que eu tinha dez anos e caí de bicicleta atrás da Susana. A praia fluvial serve para os miúdos se estrearem nos primeiros mergulhos e para os pais discutirem quem é que se esqueceu do protector solar. De canoa também se vai, mas leva garrafa de água: o rio é largo e a sede aparece sem avisar.
Quando o sol se põe atrás da ponte — essa que o Eiffel desenhou antes de se armar em parisiense — o Tejo fica espelho e o vento leva as vozes. Valada fica pequena, mas inteira: 683 habitantes, zero trânsito, e um silêncio que só é estragado quando a garça levanta voo e alguém resmunga "lá se vai a paz".