Artigo completo sobre Vila Chã de Ourique: onde a lezíria encontra a serra
Entre lagares centenários e arrozais do Tejo, esta freguesia do Cartaxo preserva tradições oleícolas
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O azeite ainda quente escorre da prensa de madeira em fios dourados, formando poças no chão de pedra do lagar. Novembro cheira a azeitona esmagada em Vila Chã de Ourique. Lá fora, os campos da lezíria estendem-se até ao Tejo — arrozais em descanso, vinhas despidas, sobreiros na Serra de Ourique.
A freguesia tem 33 km² e 2 469 habitantes. "Ourique" vem do árabe Ouriq, "caminho de areia". Adicionaram em 1917 para distinguir esta Vila Chã das outras.
Pedra e fé nas margens do caminho
A Anta da Fonte da Pipa fica no meio dos campos. É Monumento de Interesse Público desde 1940, mas o acesso é por terra batida e não há sinalização. A Igreja Matriz tem retábulo barroco e azulejos do século XVIII. No adro, um plátano com 35 metros de perímetro — árvore de interesse público desde 1997 — dá sombra ao cruzeiro de 1772.
O Caminho de Santiago atravessa a freguesia durante 5 km. Passa pela Capela de São Brás e pelo antigo cais de embarque. Marcos miliários do século XVIII estão escondidos sob silvas. Junto ao percurso, ainda se vêm valas das invasões francesas.
O sabor da lezíria
O ensopado de enguião leva peixe-cobra do Tejo e pão de milho. As migas de espargos bravos equilibram amargura com toucinho. A cozinha é o que a terra dá — rio e serra.
O azeite DOP Azeites do Ribatejo, feito de galega e cobrançosa, serve-se com queijo fresco envolto em folha de figueira. Na Festa do Azeite Novo, terceiro fim-de-semana de novembro, o Lagar Municipal abre para lagaradas ao vivo. O concurso de "pão chorão" atrai produtores da região. O moinho de vento na Serra de Ourique é agora centro interpretativo.
Água, arroz e aves
A Ribeira de Magos tem 4 km para canoagem. No Paul de Vila Chã, zonas húmida temporária, nidificam garças-reais e abetres-do-egipto. A praia fluvial do Alamal tem bandeira azul e oferece caiaque e bateiras — barcos de fundo chato.
A Rota do Azeite é um trilho circular de 7,5 km. Sobe à Serra de Ourique através de estevais e sobreiros. Do miradouro, vêem-se os arrozais em forma geométrica. Em setembro, a colheita do arroz atrabalha meia freguesia. Quem ajuda come sopa de cebolada no campo.
As figueiras-da-índia do pomar centenário — plantado em 1908 — são o único no Ribatejo. A luz de agosto incendeia o Tejo em cobre.