Artigo completo sobre Coruche: Montado de Sobro e Lezírias do Sorraia
Vila ribatejana entre arrozais e o maior montado de soruche do país, com herança manuelina
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O aroma a cortiça fresca corta o ar, mesmo antes de se ver o montado. É aos Domingos, às 9h30, que o sino da Matriz — três toques seguidos, pausa, dois — marca o ritmo de quem ainda vai ao café Mariano antes da missa. Na Rua da Misericórdia, o sobrado onde viveu o “coronel” Abílio, descendentes dos Ataídes, mantém as janelas de madeira pintada de verde, cor que os oleiros da Lixita deixaram de produzir em 1974. O Pelourinho, erguido em 1554 (não 1285: esse foi o foral, agora guardado no Arquivo Municipal, folha de pergaminho com selo de dom Dinis), perdeu um braço na tempestade de 1981; o outro aguenta-se com ferro interior que ninguém ousa substituir.
Korush, que só os mais velhos ainda dizem
O nome aparece num mapa de 1158, mas a vila mudou de lado do Sorraia depois da expulsão dos muçulmanos em 1147, quando Afonso Henriques deu estes campos aos Templários. A Matriz, começada em 1536, acolheu no retábulo-mor o pintor André Gonçalves, que cobrou 12 000 réis por cada apostolo; o azulejo azul-amarelo do coroal veio de Talavera, espanha, e chegou pelo rio, como as colmeias de pedra que hoje decoram o adro. Em frente, a casa grande dos Palmela — hoje Centro de Artes — guarda no rés-do-chão uma cisterna mourisca com 3,5 m de profundidade, ainda usada pela Câmara para regar os canteiros quando a seca aperta.
Capital não tão invisível da cortiça
São 24 000 ha de sobreiro, 53 % do concelho. A descortiça começa em Maio, quando o termómetro não desce dos 14 °C às 6h00; cada equipe — “corticeiro, puxador e picador” — tira 1 200 kg por dia, pagos 45 € aos pares. A fábrica Amorim, na Herdade de Carvalheira, produz 30 milhões de rolhas/ano; na Américo, de 1923, ainda se faz chão para astronautas da NASA, mas agora vende sobretudo para Wall Street, isolamento acústico de escritórios. A Festa da Cortiça, terceiro fim-de-semana de Junho, começa às 21h00 com o cortejo dos “noivos” — troncos vestidos com aço de colheita — e acaba domingo à 1h00 no pavilhão da Feira, com sopa de cebola e aguardente da Cooperativa Agrícola.
Arroz que nasce do Sorraia e do Almançor
A Lezíria mede 9 200 ha; 4 800 são de arroz, irrigados por 47 km de levadas abertas à pico e enxada em 1927. O Carolino — variedade Euro, semente adquirida em 1983 na Estação de Arroz de Samora Correia — leva 140 dias desde a sementeira até à seca. No restaurante O Ribatejano, o arroz de pato leva 250 g de enchidos da Salsicharia Silva (fábrica de 1952, Rua 5 de Outubro) para 4 pessoas; vai ao forno de lenha 20 min, depois de 3 “descolar” com caldo de casca de laranja — truque da Dona Lurdes, cozinheira desde 1978. Quem quiser levar, o saco de 5 kg selado pela Cooperativa do Arroz de Coruche custa 6 € no Mercado Municipal, segunda a sábado, das 7h00 às 13h00.
Trilhos que a maré enche e esvazia
O Trilho do Sorraia tem 12 km; começa junto à ponte de ferro de 1934 (vão-de-13 metros, obra dos irmãos Vilhena) e termina no molhado do Escatelar, onde o pato-bravo nidifica de Março a Junho. O Lago do Campo de Tiro, aberto à pesca em 1998, tem 42 m de profundidade no centro; o coto de pesca nº 3 custa 5 €/dia e exige licença vendida no bar “O Pescador”, aberto desde 6h30 com tostas de chouriça caseira. No domingo, ao entardecer, o cheiro a eucaliptol do montado junta-se ao fumo das fogueiras junto ao campo de futebol da Portela: são os rapazes da Associação de Caçadores a assarem borrego para o jantar de encerramento da época, sempre antes do São Martinho, quando o sobreiro volta a sangrar.