Artigo completo sobre Águas Belas: capital industrial do interior do Zêzere
Freguesia de 22 km² lidera impostos em Ferreira do Zêzere com indústria cerâmica e metalúrgica
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O pelourinho está ali como quem não quer nada, encostado à rotunda, com o brasão dos Pereiras entalado na pedra como uma tatuagem que se arrependeu. Três degraus de calcário e pronto: é o que resta dos tempos em que Águas Belas era concelho. Dizem que o nome vem das fontes — e é verdade, há água que nem perdão — mas o que eu sei é que hoje a aldeia sobrevive a empurrar cerâmica, rações e componentes metálicos para o resto do mundo, enquanto paga mais IMI que qualquer outra freguesia do concelho. Tudo isto em 22 km², o que dá para perceber que aqui se trabalha mais que se dorme.
Quando éramos "cidade"
Entre 1513 e 1836, Águas Belas teve carta de concelho. Não há grande coisa para ver disso, além do pelourinho e da igreja que foi rebolada no fim do século XX. Mas dentro da igreja há uma custódia de prata dourada que vale a pena espreitar — é pequena, discreta, do tamanho da devoção local. Não há festa do divino nem procissão de arraial, só mesmo um magusto e uma mostra de doces que a Junta inventou para os netos visitarem os avós sem parecerem que estão a cumprir pena.
O que resta dos fornos
O projeto do tal museu da cerâmica e da serração ainda está no papel. Enquanto isso, os antigos fornos servem de muro às casas novas e as serralharias viraram fábricas de rações ou de peças para automóveis. A Sicarze, a Meigal, a PetMaxi — nomes que não dizem nada a ninguém forre da aldeia — empregam meia dúzia de dezenas de pessoas e mandam produtos para Espanha, França, até para a Alemanha. O cheiro a madeira já se foi, mas o ruído das prensas ainda se ouve de manhã cedo, misturado com o galar dos galináceos que as rações não conseguiram silenciar.
Leitão e mais nada
Se vier cá de fora, vá à Casa dos Leitões. Não é Bairrada, mas a pele estala que nem pastilha elástica e o miolo vem molhadinho de gordura — é o que se arranja de melhor sem ir até ao Mealhada. O resto é o que as pessoas têm nas hortas: azeite, se tiverem sorte com as moscas; pêra rocha, se os javalis não chegarem primeiro. Não há prato típico, mas há sopas de feijão com nabiças que sabem a sábado de manhã e doces de ovos que as velhas ainda fazem para a missa de domingo.
O que se vê e o que se não vê
A freguesia está a 300 metros de altura, entre xisto e olival. Não há trilhos marcados, não há praia fluvial, mas há um parque de lazer a ser construído junto à Junta — com bancos de madeira e um parque infantil que promete ocupar as crianças enquanto os pais discutem o preço do gasóleo. O centro de dia está sempre cheio: 65% dos habitantes tem mais de 65 anos, o que quer dizer que o café do Júlio faz mais negócio com chá de camomila que com imperial. Mesmo assim, 3 em cada 4 votam. Não é heroísmo — é hábito.
Águas Belas não tem vista para o Tejo nem miradouro instagramável. Tem é água a correr nas fontes, o fumo das lareiras às seis da tarde e o silêncio que só se parte quando a fábrica muda de turno. Não é para todos. Mas quem cá chega, fica.