Artigo completo sobre Areias e Pias: terra de feira, pedra e olivais antigos
União de freguesias em Ferreira do Zêzere onde a tradição rural resiste entre monumentos medievais
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A feira dominical de Areias instala-se ao som de portas de carrinhas a abrir, lonas que esticam ao vento, vozes que negociam preços de hortaliça ainda com terra agarrada às raízes. É domingo de manhã, e a praça enche-se de gente que vem das aldeias em redor — uns a pé, outros de carro, alguns de tractor se a semana foi de muito trabalho. O cheiro a pão quente mistura-se com o aroma das azeitonas temperadas, e entre as bancas circula o rumor antigo de uma terra que sempre soube viver do que planta e do que cria.
Esta é a maior freguesia do concelho de Ferreira do Zêzere — ocupa quase um terço do território —, mas a extensão não se mede apenas em hectares. Mede-se no tempo que demora a percorrer os caminhos rurais entre olivais centenários e pinhais densos, na distância entre a Igreja Matriz de Areias, erguida em pedra clara e classificada como Monumento Nacional, e as ruínas do Castelo de D. Gaião, que ainda marcam a paisagem como testemunho de uma ordem defensiva medieval. Mede-se também na memória de Frei D. Gonçalo Velho Cabral, que foi comendador da Ordem de Cristo em Pias antes de partir para povoar os Açores — um nome que atravessou o Atlântico mas que nasceu aqui, entre estas colinas de terra seca que os romanos chamavam Aridas.
Pedra, fé e memória
A Igreja Matriz ergue-se no centro de Areias com a solidez de quem resistiu a séculos. O interior guarda talha dourada e um silêncio denso, quebrado apenas pelo ranger da madeira do coro quando alguém sobe as escadas. A poucos quilómetros, as ruínas do Castelo de D. Gaião permanecem como esqueleto de pedra sobre a cumeada — muros que já não protegem nada, mas que ainda enquadram o horizonte. Em Pias, o Pelourinho mantém-se de pé, símbolo de uma antiga sede concelhia extinta em 1836, e a Torre de D. Gaião, em Pereiro, completa o inventário de um passado que não se apagou por inteiro.
A cerca de um quilómetro de Areias, a Gruta de Avecasta abre-se na rocha como ferida geológica. O interior é fresco mesmo em agosto, e a humidade deixa as paredes cobertas de musgo escuro. É um refúgio natural e arqueológico, pouco sinalizado mas conhecido de quem cresce por aqui.
Queijo, azeite e pêra rocha
O queijo de Areias faz-se à mão, em queijarias familiares onde o leite coalha devagar e o soro escorre para alguidares de barro. Tem textura firme, sabor intenso, e come-se com pão de milho ou simplesmente assim, cortado à faca sobre a mesa da cozinha. A produção é artesanal, sem rótulos vistosos, e quem o prova pela primeira vez percebe a diferença entre o industrial e o verdadeiro.
A freguesia beneficia de duas denominações de origem protegida: o azeite do Ribatejo, prensado em lagares que ainda funcionam na época da apanha, e a pêra rocha do Oeste, que aqui amadurece em pomares de sequeiro. Ambos os produtos chegam à feira dominical, trazidos por produtores que conhecem cada árvore pelo nome.
Caminhos e peregrinos
A A13 e a EN110 atravessam o território, mas são os caminhos rurais — de terra batida, ladeados por muros de pedra solta — que melhor revelam a geografia desta terra. Não há trilhos oficialmente sinalizados, mas há percursos antigos entre olivais e pinhais, com vista sobre vales onde o silêncio só é interrompido pelo canto dos melros.
A freguesia integra o Caminho de Santiago — rota Interior, Via Lusitana —, e em 2022 a junta investiu perto de 149 mil euros na requalificação da sede, incluindo sanitários públicos para peregrinos. Quem passa deixa pegada no caderno de registos e leva na mochila o pó das Areias.
A albufeira de Castelo de Bode fica a vinte quilómetros, mas é destino certo nos domingos de Verão: a Praia Fluvial do Lago Azul oferece água fria e sombra de pinheiros, um contraste refrescante com o calor seco das colinas.
Quando a feira dominical termina, as lonas voltam a enrolar-se, os carros partem, e a praça de Areias regressa ao ritmo lento dos dias úteis. Fica o cheiro a terra molhada se choveu, ou a poeira suspensa se o tempo está seco — e o eco das vozes que, semana após semana, voltam a negociar o preço justo de um queijo feito como sempre se fez.