Artigo completo sobre Beco: Pedra Antiga e Silêncio Entre Serras do Zêzere
Freguesia ribatejana onde o Caminho de Santiago atravessa vales de sobreiros e olivais centenários
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A luz da manhã entra oblíqua pelas frestas das portadas de madeira, desenhando riscos amarelos no soalho de tábua corrida. Lá fora, o som metálico de um balde a bater contra o poço ecoa na rua deserta, enquanto o cheiro a lenha de carvalho se mistura com o ar frio que desce da serra. Beco acorda devagar, sem pressa, como quem conhece o peso dos séculos e não vê razão para os apressar.
A freguesia estende-se por 16 km² de terreno ondulado, a 264 metros de altitude, entre vales estreitos e cumeadas cobertas de pinheiro-manso e sobreiro. É território de densidade humana baixa — 46,9 habitantes/km² segundo o Censos 2021 — onde as casas se agrupam em núcleos pequenos, ligadas por estradas municipais que serpenteiam entre olivais antigos e parcelas de terra cultivada à mão. Dos 753 residentes, 67 têm menos de 15 anos e 266 têm mais de 65. São números que se leem todos os dias na porta da única padaria que ainda abre às 7h30, e que a dona Ilda sabe de cor.
A igreja que sobreviveu às invasões
A única classificação da freguesia é a Igreja de São João Evangelista, Monumento de Interesse Público desde 1977. Construída no séc. XVI sobre uma capela medieval, tem retábulo-mor em talha dourada que sobreviveu ao terramoto de 1755 e às invasões francesas de 1810-11. A pedra calcária das paredes, gasta pela chuva e pelo vento, guarda registos de baptismos que começam em 1703 — o mais antigo é o de Domingos Pires, filho de "lavradores desta freguesia de Beco". O interior mantém os 19ºC mesmo quando lá fora faz 35ºC, e é aqui que ainda hoje 20 crianças fazem a primeira comunhão todos os anos, com os mesmos paramentos que as suas avôs guardaram em baús de cedro.
O Caminho de Santiago passa aqui pela Via Lusitana, mas não há setas amarelas pintadas — há apenas uma marcação discreta da Federação Portuguesa de Caminhos de Santiago, colocada em 2019, que poucos reparam. Os peregrinos que descem de Alburitel para Beco encontram o café "O Zêzere" fechado à segunda-feira, e têm de esperar pelo Martim, que abre às 14h00 para servir o único menu disponível: sopa da pedra, bacalhau com todos e arroz doce, 8€ com vinho da casa.
O azeite que ganhou medalha em 2019
Os 42 hectares de olival da Cooperativa Agrícola de Beco produzem 15 000 litros de azeite por ano, todos com DOP Azeites do Ribatejo. Em 2019, o azeite "Beco Virgem Extra" ganhou prata no concurso nacional de azeites de Lisboa — é o que o Sr. Armindo, presidente da cooperativa, mostra primeiro aos visitantes. A Pêra Rocha chega em setembro, vindas dos pomares da Quinta do Pinheiro, mas não há festa da colheite — os 18 produtores entregam-nas diretamente à central de empacotamento em Ferreira do Zêzere, e acabam nos supermercados Lidl de todo o país.
Há 8 alojamentos registados no Turismo de Portugal, mas só 3 abrem o ano todo. O "Casa da Avó" tem reservas marcadas desde abril para agosto — são emigrantes que voltam à aldeia, filhos e netos que ocupam as 4 quartos e enchem a casa do cheiro às broas que a D. Alice ainda faz no forno a lenha. Os outros 5 só abrem quando o INEM faz formação no centro de saúde ou quando há casamentos na igreja, e é a Céu da padaria que tem as chaves.
Quando o sol se põe atrás do Cabeço da Vela, o céu ganha tons de laranja queimado e violeta profundo. As sombras alongam-se, os muros de pedra solta arrefecem depressa, e o fumo das chaminés começa a subir vertical. É nessa hora que Beco revela a sua verdadeira escala: 753 pessoas que sabem que o último autocarro para Ferreira do Zêzere é às 19h15, e que o bar do Celestino fecha quando o último cliente vai embora — geralmente antes das 22h00.