Artigo completo sobre Nossa Senhora do Pranto: vida lenta no interior ribatejano
Freguesia de Ferreira do Zêzere onde o tempo se mede em olivais e caminhos de pedra
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A estrada deixa o Zêzere lá em baixo e sobe aos solavancos, como quem tem pressa de chegar a lado nenhum. Aos 187 metros, o vale abre-se em campos de oliveiras que parecem ter sido ali plantadas por quem se esqueceu de as ir buscar. O cheiro é o de sempre: terra batida e resina que gruda na roupa. Nossa Senhora do Pranto fica mesmo no cimo desta serra - o nome é grande para uma aldeia que cabe toda no olhar.
O que os números não dizem
Dizem as estatísticas que são 993 pessoas. Na prática, são os 20 velhotes que ainda vão ao Café Central jogar sueca, as 3 crianças que esperam o autocarro escolar às 7 da manhã, e o resto que só se vê ao domingo, quando as filhas vêm almoçar. A densidade populacional diz 32 por km², mas isto é tramóia: há dias em que só se encontram dois gatos e um cão na rua principal.
O que importa é que aqui ainda se faz azeite como se fazia há 50 anos - os frutos vão para o lagar de Ferreira, mas o trabalho é todo no olival, entre Novembro e Janeiro, quando as mãos ficam pretas de terra e os joelhos doem de tanto se estar curvado. É isso que mantém a aldeia viva, não os papéis da Câmara.
O que vem cá parar
O Caminho de Santiago passa aqui, sim senhor. Mas não pensem que é coisa de muitos - aparece um peregrino de vez em quando, geralmente alemão, com aquela cara de quem pensou que Portugal era todo igual à Algarve. Param no café, bebem um café, perguntam se há sítio para dormir. O Rui, que tem aquela casa com quartos, às vezes recebe-os. Mas não é negócio - é pena.
O nome da freguesia vem daquela imagem da Virgem a chorar. História de 1755, dizem os mais velhos. O que sei é que ninguém aqui chora por nada - chora-se é quando a seca estraga as oliveiras ou quando o preço do azeite desce outra vez.
O que se come
O azeite é rei. Tudo vai ali dentro - a sopa de alho, o ensopado de borrego, os feijões com broculos. A pêra rocha aparece quando aparece, normalmente vindos dos quintais dos lados de Tomar. Não há restaurantes com estrelas Michelin. Há é a D. Lurdes que faz cabrito no forno de lenha quando lhe pedem com jeitinho, e o Sr. António que tem aquele vinho tinto que parece tinta mas que descasca bem.
Para dormir, há umas casas recuperadas. São casas de família que os filhos transformaram quando perceberam que o dinheiro não estava em Paris. Não são de luxo - são de verdade. Tapetes de lã da avó, camas de ferro, e aquela humidade que só as casas antigas têm no Inverno.
À hora do lusco-fusco, quando o sol se põe atrás da serra e as oliveiras parecem de ouro, percebe-se porque é que ainda cá estão. É aquela luz, aquele silêncio, e o cheiro a terra que vai ser regada amanhã de madrugada. Não é para todos - é para quem percebe que vale a pena estar onde o tempo ainda é tempo.