Artigo completo sobre Pombalinho: planície ribatejana entre o paul e o caminho
Freguesia agrícola na Golegã onde a Reserva do Paul do Boquilobo molda a paisagem e a memória
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A planície abre-se em tons de ocre e verde-pálido, cortada por linhas de água que se perdem entre campos de milho que, em Junho, já teimam em tocar o céu. Pombalinho respira ao ritmo da terra que se trabalha — são 395 pessoas, nem sempre as mesmas, espalhadas por oito quilómetros quadrados de Ribatejo onde o chão é tão plano que a vista se cansa de não encontrar um monte à frente. Quando o vento vira, traz o cheiro a terra lavrada misturado com o feno que seca em manguitos improvisados junto das searas e, se for Inverno, o mofo que sobe do paul.
Entre o Paul e o Caminho
A Reserva do Paul do Boquilobo fica ali ao lado, mas ninguém diz “reserva”: diz-se “o Paul”. Quando as garças-reais ainda por cima dos chaparros, é sinal de que o Verão está a chegar ao fim. Os campos drenam para ribeiras que só têm nome quem os atravessa a pé — a água fica presa na argila e, mesmo em Agosto, há poças que nunca secam, onde as rãs fazem coro à noite tão alto que abafam o ruído dos tratores a aquecer. O Caminho de Santiago passa mesmo pelo centro da aldeia, mas aqui chama-se só “o caminho”: os peregrinos param no café da Adelaide pedir água e desaparecem pela estrada de terra a abrir, deixando para trás o pó e um cheiro a mochila molhada.
Memória Classificada
A Igreja de São João Baptista é o que resta para contar que Pombalinho já foi quase vila. A fachada de pedra de quina rachada pelo tempo esconde um adro onde as crianças ainda brincam à apanhada entre túmulos de nome apagado. Lá dentro, o cheiro a cera e a madeira queimada dos círios antigos agarra-se à roupa. A Campainha toca às sete da manhã — ninguém regula o relógio, mas toca sempre às sete.
Mesa Ribatejana
Na tasquina do Zé Manel serve-se às quartas-feiras uma ensopada de borrego que cozinha desde as cinco da manhã em lume de lenha. O pão é do dia, comprado às sete na padaria de Golegã que ainda usa forno a lenha; o vinho tinto vem em jarros de barro que ninguém lava com detergente para não estragar o gosto. Quando há matança, o fumeiro da vizinha fica cheio de chouriços que depois aparecem nas mesas — não são “DOP”, são só mesmo de porco que andou a comer bolotas no montado. As azeitonas são daqui, miúdas e amargas, mas basta um fio de azeite novo sobre uma posta de borrego para perceber que mais não é preciso.
Ritmo Baixo
Às quatro da tarde, as ruas estão tão vazias que se ouve o relógio da igreja a marcar os segundos. A escola fechou há dez anos — agora é centro de dia onde os velhos jogam sueca e beigam café torrado. Os jovens foram quase todos para Lisboa ou para a construção noutros lados, mas há sempre um que regressa no fim-de-semana com o carro cheio de roupa suja e a promessa de “ficar só até arranjar outra coisa”. Ao fim do dia, quando o sol se põe por trás do eucaliptal e o vento traz o cheiro a terra que arrefece, o cão do Silvestre ladra para nada e as sombras alongam-se sobre o campo como se quisessem cobrir o que resta do dia.